{"id":10387,"date":"2026-01-15T17:33:53","date_gmt":"2026-01-15T17:33:53","guid":{"rendered":"https:\/\/gimm.pt\/news\/de-fazedores-da-fagocitose-a-guardioes-metabolicos-como-os-macrofagos-mantem-o-organismo-vivo-quando-o-metabolismo-colapsa\/"},"modified":"2026-01-15T17:42:59","modified_gmt":"2026-01-15T17:42:59","slug":"de-fazedores-da-fagocitose-a-guardioes-metabolicos-como-os-macrofagos-mantem-o-organismo-vivo-quando-o-metabolismo-colapsa","status":"publish","type":"news","link":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/not\u00edcias\/de-fazedores-da-fagocitose-a-guardioes-metabolicos-como-os-macrofagos-mantem-o-organismo-vivo-quando-o-metabolismo-colapsa\/","title":{"rendered":"De fazedores da fagocitose a guardi\u00f5es metab\u00f3licos: como os macr\u00f3fagos mant\u00eam o organismo vivo quando o metabolismo colapsa"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 mais de um s\u00e9culo, um zo\u00f3logo russo, observando ao microsc\u00f3pio larvas transparentes de estrelas-do-mar, lan\u00e7ou as bases da imunologia moderna. Na d\u00e9cada de 1880, Ilya Ilyich Metchnikoff observou c\u00e9lulas m\u00f3veis a deslocarem-se rapidamente para rodear pequenos espinhos de citrinos que tinha introduzido no corpo das larvas. A partir destas experi\u00eancias simples emergiu uma ideia radical: certos gl\u00f3bulos brancos engolem e destroem ativamente agentes nocivos \u2014 um processo a que chamou fagocitose.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, a proposta de Metchnikoff de que a inflama\u00e7\u00e3o era um mecanismo protetor, e n\u00e3o patol\u00f3gico, foi recebida com ceticismo por figuras de refer\u00eancia como Louis Pasteur e Emil von Behring. A hist\u00f3ria, por\u00e9m, viria a dar-lhe raz\u00e3o. Metchnikoff recebeu o Pr\u00e9mio Nobel em 1908, e hoje a fagocitose \u00e9 um pilar central da imunologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de cem anos depois, um novo trabalho liderado pelos investigadores do GIMM Rui Martins e Birte Blankenhaus, do laborat\u00f3rio de Miguel Soares, expande a vis\u00e3o original de Metchnikoff. O estudo, publicado no <em>The EMBO Journal<\/em> (<em>Homeostatic control of energy metabolism by monocyte-derived macrophages<\/em>), revela que os macr\u00f3fagos fazem muito mais do que defender o organismo contra infe\u00e7\u00f5es. Funcionam como guardi\u00f5es metab\u00f3licos, capazes de detetar stress sist\u00e9mico, reciclar componentes celulares danificados e sustentar a fun\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os inteiros quando processos metab\u00f3licos fundamentais falham \u2014 mantendo, por exemplo, o cora\u00e7\u00e3o a bater em situa\u00e7\u00f5es em que, de outra forma, os ratinhos morreriam ap\u00f3s a disrup\u00e7\u00e3o da homeostase do ferro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dez anos para revelar um sistema de resgate invis\u00edvel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados s\u00e3o fruto de quase uma d\u00e9cada de investiga\u00e7\u00e3o, envolvendo dezenas de modelos animais e uma extensa s\u00e9rie de experi\u00eancias tecnicamente exigentes. O desfecho \u00e9 o estudo de 45 p\u00e1ginas, agora publicado no <em>The EMBO Journal<\/em>, que revela um mecanismo at\u00e9 aqui desconhecido que liga o metabolismo do ferro, a sa\u00fade mitocondrial e o equil\u00edbrio energ\u00e9tico do organismo como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEste foi um projeto muito longo, com muitas camadas experimentais, porque quer\u00edamos ter absoluta certeza de que aquilo que est\u00e1vamos a observar era real e robusto\u201d, explica Rui Martins, primeiro autor do estudo. \u201cS\u00f3 os transplantes de medula \u00f3ssea [realizados ao longo do trabalho] demoram meses a completar e t\u00eam de ser feitos em paralelo em m\u00faltiplos modelos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A vida multicelular depende de uma comunica\u00e7\u00e3o constante entre \u00f3rg\u00e3os para manter par\u00e2metros vitais como a produ\u00e7\u00e3o de energia, a temperatura corporal e o equil\u00edbrio de nutrientes. Quando esta rede \u00e9 interrompida, as consequ\u00eancias s\u00e3o frequentemente catastr\u00f3ficas. O novo estudo mostra que, quando o metabolismo do ferro colapsa, os macr\u00f3fagos assumem o papel de coordenadores centrais de um mecanismo de resgate sist\u00e9mico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ferro: essencial, reativo e indispens\u00e1vel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O ferro est\u00e1 no centro desta hist\u00f3ria. \u00c9 um cofator essencial para in\u00fameras rea\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas, em particular nas mitoc\u00f4ndrias, as centrais energ\u00e9ticas da c\u00e9lula, onde sustenta a cadeia de transporte de eletr\u00f5es e a produ\u00e7\u00e3o de ATP, a principal mol\u00e9cula energ\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO ferro est\u00e1 envolvido num n\u00famero extraordin\u00e1rio de processos metab\u00f3licos\u201d, afirma Rui Martins. \u201cMas \u00e9 tamb\u00e9m extremamente reativo. Se estivesse livre no interior da c\u00e9lula, catalisaria rea\u00e7\u00f5es oxidativas altamente destrutivas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para gerir este risco, as c\u00e9lulas controlam rigorosamente o ferro atrav\u00e9s da ferritina, um complexo proteico que armazena o metal de forma segura. Neste estudo, os investigadores eliminaram geneticamente a cadeia pesada da ferritina (FTH) em tecidos de ratinho, criando uma disrup\u00e7\u00e3o controlada do armazenamento de ferro em todo o organismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado, j\u00e1 descrito em trabalhos anteriores, foi um colapso metab\u00f3lico profundo. Apesar de o ferro estar presente, as c\u00e9lulas n\u00e3o conseguiam utiliz\u00e1-lo de forma segura ou eficiente \u2014 um estado que os investigadores descrevem como uma \u201cfalsa defici\u00eancia de ferro\u201d. Os animais desenvolveram mitoc\u00f4ndrias disfuncionais, atrofia do tecido adiposo, altera\u00e7\u00f5es card\u00edacas, termog\u00e9nese comprometida e, por fim, fal\u00eancia multiorg\u00e2nica e morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, os investigadores transplantaram c\u00e9lulas da medula \u00f3ssea que expressavam FTH para ratinhos que n\u00e3o expressavam esta prote\u00edna \u2014 e, surpreendentemente, os animais sobreviveram. Pelo contr\u00e1rio, quando transplantaram medula \u00f3ssea em que apenas a linhagem de macr\u00f3fagos n\u00e3o expressava FTH, os ratinhos deixaram de ser resgatados. Estes resultados implicam diretamente os macr\u00f3fagos no resgate do colapso metab\u00f3lico e da morte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsto diz-nos que, embora a ferritina seja essencial para a sobreviv\u00eancia, basta que os macr\u00f3fagos a expressem para que o organismo inteiro funcione\u201d, explica Martins. \u201cOs tecidos podem ser completamente incapazes de produzir ferritina e, ainda assim, o animal sobrevive.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo refor\u00e7a a ideia de que os macr\u00f3fagos derivados de mon\u00f3citos atuam como sensores de desequil\u00edbrios do ferro, detetando stress metab\u00f3lico nos tecidos e desencadeando uma resposta coordenada que previne a fal\u00eancia dos \u00f3rg\u00e3os. Os investigadores descrevem este papel como o de um \u201cferrostat\u201d celular \u2014 um regulador que liga o metabolismo do ferro ao equil\u00edbrio energ\u00e9tico \u00e0 escala do organismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Transmitofagia: gest\u00e3o do lixo mitocondrial \u00e0 escala do organismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos tecidos que n\u00e3o produzem ferritina, as mitoc\u00f4ndrias acumulam danos oxidativos e tornam-se disfuncionais. Normalmente, as c\u00e9lulas eliminariam estes res\u00edduos atrav\u00e9s de um processo de limpeza chamado mitofagia, que \u00e9 energeticamente exigente. Contudo, em condi\u00e7\u00f5es de stress metab\u00f3lico severo, essa capacidade entra em colapso.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o estudo demonstra \u00e9 que as c\u00e9lulas sob stress exportam as suas mitoc\u00f4ndrias danificadas para os macr\u00f3fagos, que as englobam e degradam em compartimentos lisossomais \u2014 um processo designado por \u2018<strong>transmitofagia\u2019<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 quase como um sistema de gest\u00e3o de res\u00edduos \u00e0 escala do organismo\u201d, explica Martins. \u201cAs c\u00e9lulas externalizam a elimina\u00e7\u00e3o de mitoc\u00f4ndrias danificadas para os macr\u00f3fagos, que est\u00e3o melhor equipados para lidar com a carga de ferro e o stress oxidativo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, este resultado contrariou a hip\u00f3tese inicial da equipa. \u201cPens\u00e1vamos que os macr\u00f3fagos poderiam estar a doar mitoc\u00f4ndrias saud\u00e1veis aos tecidos\u201d, refere. \u201cOs dados mostraram o oposto \u2014 o fluxo \u00e9 sobretudo das c\u00e9lulas em stress para os macr\u00f3fagos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Lidar com este influxo mitocondrial exige que os pr\u00f3prios macr\u00f3fagos sejam metabolicamente robustos. O estudo mostra que a express\u00e3o de FTH ativa um programa transcricional controlado pelo <strong>TFAM (Mitochondrial Transcription Factor A)<\/strong>, um regulador chave da manuten\u00e7\u00e3o e biog\u00e9nese do DNA mitocondrial.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o TFAM foi eliminado especificamente nos macr\u00f3fagos, o efeito de resgate desapareceu \u2014 mesmo na presen\u00e7a de ferritina. Este resultado demonstra que a sa\u00fade mitocondrial dos macr\u00f3fagos \u00e9 essencial para sustentar o resgate metab\u00f3lico do organismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para al\u00e9m do ferro: implica\u00e7\u00f5es para a doen\u00e7a e a fisiologia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora o modelo experimental se baseie numa disrup\u00e7\u00e3o artificial do metabolismo do ferro, os autores acreditam que revela um princ\u00edpio biol\u00f3gico muito mais amplo. Mecanismos semelhantes de remo\u00e7\u00e3o mitocondrial mediada por macr\u00f3fagos j\u00e1 foram descritos no cora\u00e7\u00e3o, onde a sua falha conduz a doen\u00e7a card\u00edaca mesmo na aus\u00eancia de defeitos no metabolismo do ferro.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta versatilidade levanta tamb\u00e9m quest\u00f5es complexas. No cancro, por exemplo, as c\u00e9lulas tumorais enfrentam stress metab\u00f3lico intenso. \u201cO que impede uma c\u00e9lula cancer\u00edgena de pedir ajuda a um macr\u00f3fago?\u201d, questiona Martins. Ao apoiar tecidos em sofrimento, os macr\u00f3fagos podem, em determinados contextos, contribuir inadvertidamente para a progress\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Vista numa perspetiva hist\u00f3rica, esta descoberta representa uma extens\u00e3o conceptual direta da intui\u00e7\u00e3o original de Metchnikoff. A fagocitose j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas um mecanismo de defesa contra microrganismos; \u00e9 parte de um sistema sofisticado de manuten\u00e7\u00e3o celular, suporte metab\u00f3lico e resili\u00eancia fisiol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEste trabalho mostra que os macr\u00f3fagos est\u00e3o na intersec\u00e7\u00e3o entre imunidade, metabolismo e comunica\u00e7\u00e3o entre \u00f3rg\u00e3os\u201d, conclui Martins. \u201cS\u00e3o verdadeiros canivetes su\u00ed\u00e7os da biologia \u2014 adapt\u00e1veis, vers\u00e1teis e indispens\u00e1veis para a vida.\u201d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"819\" src=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Graphical-abstract_EMBO_For_report-01-1024x819.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-10383\" style=\"width:494px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Graphical-abstract_EMBO_For_report-01-1024x819.png 1024w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Graphical-abstract_EMBO_For_report-01-300x240.png 300w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Graphical-abstract_EMBO_For_report-01-768x615.png 768w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Graphical-abstract_EMBO_For_report-01-1536x1229.png 1536w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Graphical-abstract_EMBO_For_report-01.png 1772w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/div>","protected":false},"featured_media":10386,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","news_category":[39],"news_tag":[],"publications":[],"publication_date":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news\/10387"}],"collection":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10387"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10386"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10387"}],"wp:term":[{"taxonomy":"news_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_category?post=10387"},{"taxonomy":"news_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_tag?post=10387"},{"taxonomy":"publications","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publications?post=10387"},{"taxonomy":"publication_date","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publication_date?post=10387"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}