{"id":10923,"date":"2026-03-13T11:35:03","date_gmt":"2026-03-13T11:35:03","guid":{"rendered":"https:\/\/gimm.pt\/news\/nas-science-rounds-discute-se-a-complexa-biologia-da-cardiomiopatia\/"},"modified":"2026-03-13T11:42:13","modified_gmt":"2026-03-13T11:42:13","slug":"nas-science-rounds-discute-se-a-complexa-biologia-da-cardiomiopatia","status":"publish","type":"news","link":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/not\u00edcias\/nas-science-rounds-discute-se-a-complexa-biologia-da-cardiomiopatia\/","title":{"rendered":"Nas Science Rounds discute-se a complexa biologia da cardiomiopatia"},"content":{"rendered":"\n<p>Numa sala completamente cheia, com vista para o Hospital de Santa Maria, investigadores, m\u00e9dicos, enfermeiros e estudantes de doutoramento reuniram-se na mais recente sess\u00e3o de Science Rounds, a 10 de mar\u00e7o, para analisar a biologia das cardiomiopatias a partir de perspetivas complementares, cruzando gen\u00e9tica cl\u00ednica, mecanismos moleculares e influ\u00eancias ambientais na doen\u00e7a card\u00edaca. A sess\u00e3o contou com interven\u00e7\u00f5es de Maria do Carmo Fonseca, Group Leader no GIMM, cuja investiga\u00e7\u00e3o explora os mecanismos gen\u00e9ticos e mediados por RNA subjacentes \u00e0 doen\u00e7a card\u00edaca, e de Beatriz Garcia, cardiologista do Servi\u00e7o de Cardiologia da Unidade Local de Sa\u00fade de Santa Maria.<\/p>\n\n<p>A cardiomiopatia hipertr\u00f3fica (CMH) \u00e9 uma das doen\u00e7as card\u00edacas heredit\u00e1rias mais comuns, caracterizada pelo espessamento anormal do ventr\u00edculo esquerdo do cora\u00e7\u00e3o. A condi\u00e7\u00e3o pode conduzir a complica\u00e7\u00f5es graves, incluindo arritmias, insufici\u00eancia card\u00edaca e morte s\u00fabita card\u00edaca, particularmente em pessoas jovens.<\/p>\n\n<p>Com base em mais de quatro d\u00e9cadas de seguimento cl\u00ednico no Hospital de Santa Maria, Beatriz Garcia explicou de que forma a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica pode ajudar a compreender a diversidade de desfechos cl\u00ednicos observados nos doentes. Desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 que se sabe que muta\u00e7\u00f5es em genes que codificam prote\u00ednas do sarc\u00f3mero \u2014 a maquinaria molecular respons\u00e1vel pela contra\u00e7\u00e3o do m\u00fasculo card\u00edaco &#8211; podem causar CMH. Ainda assim, na pr\u00e1tica cl\u00ednica, o quadro permanece complexo. Apenas cerca de 30 a 70% dos doentes apresentam uma variante patog\u00e9nica claramente identific\u00e1vel e, mesmo entre os portadores, a doen\u00e7a pode manifestar-se com graus de gravidade muito distintos.<\/p>\n\n<p>\u201cOs nossos doentes apresentam um curso cl\u00ednico muito heterog\u00e9neo\u201d, explicou Beatriz Garcia. \u201cMesmo hoje, prever a progress\u00e3o da doen\u00e7a e o risco de morte s\u00fabita card\u00edaca continua a ser extremamente desafiante.\u201d<\/p>\n\n<p>Focando-se em tr\u00eas genes frequentemente associados \u00e0 CMH &#8211; MYBPC3, MYH7 e genes da \u03b1-tropomiosina &#8211; apresentou estudos da coorte de Santa Maria que mostram que muta\u00e7\u00f5es em MYBPC3, muitas vezes consideradas relativamente benignas, continuam associadas a risco significativo de complica\u00e7\u00f5es como fibrilha\u00e7\u00e3o auricular, insufici\u00eancia card\u00edaca e arritmias. Uma meta-an\u00e1lise liderada pela sua equipa, envolvendo quase 4.000 doentes, confirmou que, embora estas muta\u00e7\u00f5es surjam frequentemente mais tarde na vida, podem ainda assim conduzir a desfechos graves.<\/p>\n\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o sobre muta\u00e7\u00f5es em MYH7 revelou padr\u00f5es igualmente complexos. Embora variantes gen\u00e9ticas neste gene sejam reconhecidas como causadoras de cardiomiopatia hipertr\u00f3fica, os resultados cl\u00ednicos variaram amplamente entre doentes, dificultando a associa\u00e7\u00e3o entre muta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e trajet\u00f3rias previs\u00edveis da doen\u00e7a.<\/p>\n\n<p>A cl\u00ednica destacou ainda trabalho em curso sobre variantes da \u03b1-tropomiosina, menos frequentes na literatura, mas possivelmente subvalorizadas como contributos para a HCM. Estudos em fam\u00edlias de Portugal e Espanha sugerem que determinadas variantes poder\u00e3o ter um efeito fundador na regi\u00e3o, levantando quest\u00f5es importantes sobre o seu papel na doen\u00e7a. Em conjunto, estes resultados ilustram um desafio central da gen\u00e9tica cardiovascular: embora as muta\u00e7\u00f5es possam predispor para a doen\u00e7a, a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica isoladamente \u00e9 muitas vezes insuficiente para prever como a doen\u00e7a ir\u00e1 evoluir.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1671\" height=\"940\" src=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/6-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10915\" srcset=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/6-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/6-300x169.jpg 300w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/6-768x432.jpg 768w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/6-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/6.jpg 1671w\" sizes=\"(max-width: 1671px) 100vw, 1671px\" \/><\/figure><\/div>\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<p><strong>Para al\u00e9m dos genes<\/strong><\/p>\n\n<p>Se a gen\u00e9tica n\u00e3o explica totalmente a doen\u00e7a, que outros fatores est\u00e3o envolvidos?<\/p>\n\n<p>Essa quest\u00e3o foi abordada por Maria do Carmo Fonseca, que explorou a forma como varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, biologia celular e influ\u00eancias ambientais se cruzam na cardiomiopatia.<\/p>\n\n<p>Um dos focos centrais da sua investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 o splicing de RNA, o processo atrav\u00e9s do qual as c\u00e9lulas editam transcritos de RNA antes da produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas. Muta\u00e7\u00f5es que perturbam este processo podem comprometer a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas cr\u00edticas do sarc\u00f3mero e contribuir para a cardiomiopatia.<\/p>\n\n<p>Utilizando c\u00e9lulas estaminais pluripotentes induzidas (iPSCs) derivadas de doentes, a equipa de Maria do Carmo Fonseca consegue recriar c\u00e9lulas card\u00edacas em laborat\u00f3rio e estudar como variantes gen\u00e9ticas espec\u00edficas afetam a fun\u00e7\u00e3o dos cardiomi\u00f3citos. Estas c\u00e9lulas podem ser geneticamente editadas com CRISPR, quer para introduzir quer para corrigir muta\u00e7\u00f5es, permitindo testar diretamente os seus efeitos.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1658\" height=\"935\" src=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/7-1024x577.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10917\" srcset=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/7-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/7-300x169.jpg 300w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/7-768x433.jpg 768w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/7-1536x866.jpg 1536w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/7.jpg 1658w\" sizes=\"(max-width: 1658px) 100vw, 1658px\" \/><\/figure><\/div>\n<p>Mesmo quando as muta\u00e7\u00f5es est\u00e3o presentes numa \u00fanica c\u00f3pia do gene, os cardiomi\u00f3citos resultantes j\u00e1 apresentam altera\u00e7\u00f5es subtis, sugerindo que os processos patol\u00f3gicos se iniciam muito antes do aparecimento de sintomas cl\u00ednicos. Mas, como sublinhou, a gen\u00e9tica \u00e9 apenas parte da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n<p>Evid\u00eancia emergente sugere que a cardiomiopatia hipertr\u00f3fica poder\u00e1 situar-se num cont\u00ednuo entre doen\u00e7a monog\u00e9nica e polig\u00e9nica, onde muta\u00e7\u00f5es raras interagem com variantes gen\u00e9ticas adicionais e influ\u00eancias ambientais.<\/p>\n\n<p>Um dos fatores atualmente em estudo pela sua equipa \u00e9 a inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f3nica de baixo grau, associada ao envelhecimento, obesidade e determinados padr\u00f5es de estilo de vida. A inflama\u00e7\u00e3o pode alterar a express\u00e3o g\u00e9nica atrav\u00e9s de mecanismos epigen\u00e9ticos e modifica\u00e7\u00f5es do RNA, amplificando potencialmente os efeitos de muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas subjacentes.<\/p>\n\n<p>\u201cSe uma pessoa transporta uma muta\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m apresenta inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f3nica\u201d, explicou a investigadora, \u201cestes fatores podem combinar-se e empurrar os cardiomi\u00f3citos para um estado de doen\u00e7a.\u201d<\/p>\n\n<p>Para testar esta hip\u00f3tese, o grupo est\u00e1 a expor c\u00e9lulas card\u00edacas derivadas de doentes a baixos n\u00edveis de citocinas inflamat\u00f3rias \u2014 simulando a inflama\u00e7\u00e3o subtil do quotidiano, em vez da inflama\u00e7\u00e3o aguda tipicamente estudada em laborat\u00f3rio.<\/p>\n\n<p>Em conjunto, as duas apresenta\u00e7\u00f5es mostraram como a cardiomiopatia hipertr\u00f3fica se situa na intersec\u00e7\u00e3o entre gen\u00e9tica, biologia celular e influ\u00eancias ambientais. Apesar de d\u00e9cadas de investiga\u00e7\u00e3o, prever quem desenvolver\u00e1 doen\u00e7a grave \u2014 e porqu\u00ea \u2014 continua a ser um grande desafio cient\u00edfico e cl\u00ednico. A combina\u00e7\u00e3o entre coortes cl\u00ednicas de longo prazo e ferramentas moleculares de ponta est\u00e1 a permitir construir, gradualmente, um retrato mais completo da doen\u00e7a.<\/p>\n\n<p>Como resumiu Beatriz Garcia: \u201cAinda n\u00e3o cheg\u00e1mos l\u00e1, mas todos os anos aprendemos mais sobre a forma como a gen\u00e9tica, variantes adicionais e fatores ambientais moldam esta doen\u00e7a.\u201d<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1669\" height=\"937\" src=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/5-1024x575.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10919\" srcset=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/5-1024x575.jpg 1024w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/5-300x168.jpg 300w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/5-768x431.jpg 768w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/5-1536x862.jpg 1536w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/5.jpg 1669w\" sizes=\"(max-width: 1669px) 100vw, 1669px\" \/><\/figure><\/div>","protected":false},"featured_media":10922,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","news_category":[39],"news_tag":[],"publications":[],"publication_date":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news\/10923"}],"collection":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10923"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10922"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10923"}],"wp:term":[{"taxonomy":"news_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_category?post=10923"},{"taxonomy":"news_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_tag?post=10923"},{"taxonomy":"publications","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publications?post=10923"},{"taxonomy":"publication_date","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publication_date?post=10923"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}