{"id":11802,"date":"2026-06-16T09:38:47","date_gmt":"2026-06-16T09:38:47","guid":{"rendered":"https:\/\/gimm.pt\/news\/como-a-evolucao-conseguiu-reduzir-o-tamanho-das-celulas-sem-comprometer-o-seu-crescimento\/"},"modified":"2026-06-16T09:42:03","modified_gmt":"2026-06-16T09:42:03","slug":"como-a-evolucao-conseguiu-reduzir-o-tamanho-das-celulas-sem-comprometer-o-seu-crescimento","status":"publish","type":"news","link":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/not\u00edcias\/como-a-evolucao-conseguiu-reduzir-o-tamanho-das-celulas-sem-comprometer-o-seu-crescimento\/","title":{"rendered":"Como a evolu\u00e7\u00e3o conseguiu reduzir o tamanho das c\u00e9lulas sem comprometer o seu crescimento"},"content":{"rendered":"\n<p>Porque t\u00eam as c\u00e9lulas o tamanho que t\u00eam? \u00c0 primeira vista, parece uma pergunta simples. Mas o tamanho das c\u00e9lulas influencia praticamente tudo o que acontece no seu interior, desde o metabolismo e o crescimento at\u00e9 ao envelhecimento e \u00e0 doen\u00e7a. Embora a natureza tenha produzido uma enorme diversidade de formas e dimens\u00f5es celulares, os bi\u00f3logos sabem h\u00e1 muito tempo que for\u00e7ar um determinado tipo de c\u00e9lula a sair da sua gama habitual de tamanhos tende a prejudicar o seu funcionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Como foi ent\u00e3o poss\u00edvel, ao longo da evolu\u00e7\u00e3o, surgirem c\u00e9lulas t\u00e3o diferentes entre si, se mesmo pequenas altera\u00e7\u00f5es ao seu tamanho normal costumam ter consequ\u00eancias negativas?<\/p>\n\n\n\n<p>Um novo estudo, liderado por Marco Fumasoni, em colabora\u00e7\u00e3o com Andrea Giometto, da Universidade de Cornell, e com o apoio do Human Frontier Science Program, mostra que a evolu\u00e7\u00e3o consegue ultrapassar essa aparente limita\u00e7\u00e3o. Recorrendo a experi\u00eancias de evolu\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio, usando levedura, a equipa selecionou c\u00e9lulas progressivamente mais pequenas ao longo de cerca de 1.500 gera\u00e7\u00f5es, sem comprometer significativamente a sua capacidade de crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho, publicado na revista <a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/doi\/10.1073\/pnas.2531280123\">PNAS<\/a>, identificou muta\u00e7\u00f5es em vias celulares conservadas que permitem reduzir substancialmente o tamanho das c\u00e9lulas com custos relativamente reduzidos para a sua aptid\u00e3o biol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que estudos anteriores mostraram \u00e9 que cada tipo de c\u00e9lula tende a ter um tamanho caracter\u00edstico e que esse tamanho \u00e9 importante para o seu funcionamento\u201d, explica Marco Fumasoni. \u201cQuando tornamos as c\u00e9lulas maiores ou mais pequenas, elas come\u00e7am a funcionar pior.\u201d<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Porque \u00e9 que o tamanho importa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As c\u00e9lulas disp\u00f5em de mecanismos muito eficazes para manter o seu tamanho dentro de limites bastante estreitos. Quando se afastam dessa faixa, a sua capacidade de crescer, dividir-se e regular os processos internos pode ficar comprometida. Tentativas anteriores de reduzir o tamanho celular acabavam quase sempre por afetar negativamente o crescimento, sugerindo a exist\u00eancia de um compromisso inevit\u00e1vel entre miniaturiza\u00e7\u00e3o e desempenho biol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Fumasoni compara esta situa\u00e7\u00e3o \u00e0 economia. \u201cSe reduzirmos toda a economia, estamos tamb\u00e9m a reduzir a sua capacidade de crescimento\u201d, explica. \u201cMas a evolu\u00e7\u00e3o conseguiu separar estas duas coisas. As c\u00e9lulas tornaram-se muito pequenas, mas continuaram a crescer a um ritmo elevado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de alterarem diretamente genes espec\u00edficos, os investigadores recorreram \u00e0 sele\u00e7\u00e3o artificial, um processo semelhante ao utilizado na agricultura para obter variedades com caracter\u00edsticas desejadas. \u201c\u00c9 exatamente o mesmo princ\u00edpio usado para produzir tomates-cereja\u201d, exemplifica Fumasoni. \u201cEm cada gera\u00e7\u00e3o escolhem-se os exemplares mais pequenos e propagam-se esses.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os dias, a equipa selecionava as c\u00e9lulas de levedura mais pequenas da popula\u00e7\u00e3o. Essas c\u00e9lulas tinham tamb\u00e9m de competir pelos nutrientes dispon\u00edveis e multiplicar-se rapidamente antes da ronda seguinte de sele\u00e7\u00e3o.&nbsp; \u201cDe manh\u00e3 selecion\u00e1vamos as c\u00e9lulas mais pequenas e, durante o resto do dia, elas competiam entre si em termos de crescimento\u201d, explica. \u201cNa pr\u00e1tica, a evolu\u00e7\u00e3o estava a selecionar simultaneamente c\u00e9lulas mais pequenas e c\u00e9lulas capazes de crescer depressa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo do tempo, este processo revelou solu\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que dificilmente teriam sido identificadas atrav\u00e9s de abordagens cl\u00e1ssicas de engenharia gen\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para perceber os mecanismos envolvidos, os investigadores sequenciaram popula\u00e7\u00f5es inteiras de levedura em diferentes fases da experi\u00eancia. Como foram sendo preservadas amostras congeladas ao longo de todo o processo, foi poss\u00edvel reconstruir a hist\u00f3ria evolutiva das muta\u00e7\u00f5es que surgiram e acompanhar a sua propaga\u00e7\u00e3o ao longo das gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA grande vantagem da evolu\u00e7\u00e3o experimental \u00e9 que nos permite conservar uma esp\u00e9cie de registo f\u00f3ssil vivo, que podemos recuperar para compreender como a evolu\u00e7\u00e3o ocorreu\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao seguirem as muta\u00e7\u00f5es que se tornavam cada vez mais frequentes, os investigadores identificaram altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas em vias conservadas associadas ao crescimento celular e ao ciclo celular. Essas altera\u00e7\u00f5es estavam ligadas a c\u00e9lulas mais pequenas, mas ainda capazes de crescer rapidamente. A manipula\u00e7\u00e3o direta desses genes confirmou a rela\u00e7\u00e3o causal e permitiu obter c\u00e9lulas de levedura cujo tamanho variava at\u00e9 seis vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados sugerem que o ajustamento gradual destas vias conservadas poder\u00e1 constituir um mecanismo geral atrav\u00e9s do qual a evolu\u00e7\u00e3o molda o tamanho das c\u00e9lulas.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Para al\u00e9m da levedura: poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es para o envelhecimento e o cancro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora este seja um estudo de biologia fundamental, os seus resultados poder\u00e3o vir a ter implica\u00e7\u00f5es em \u00e1reas como o envelhecimento, o cancro ou a biologia sint\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>As experi\u00eancias foram realizadas em levedura de brotamento, um organismo unicelular amplamente utilizado como modelo em biologia celular. Ainda assim, muitos dos mecanismos que regulam o tamanho celular s\u00e3o partilhados pelos organismos eucari\u00f3ticos, incluindo os seres humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs c\u00e9lulas humanas controlam o seu tamanho de forma muito semelhante. As prote\u00ednas envolvidas podem ser diferentes, mas os princ\u00edpios gerais parecem ser os mesmos\u201d, refere Fumasoni. Uma das \u00e1reas potencialmente relevantes \u00e9 a investiga\u00e7\u00e3o sobre o envelhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExiste uma rela\u00e7\u00e3o clara entre o aumento do tamanho celular, a senesc\u00eancia e o envelhecimento\u201d, explica. \u201c\u00c0 medida que as c\u00e9lulas se tornam maiores, tendem a entrar mais facilmente em senesc\u00eancia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A senesc\u00eancia celular &#8211; um estado em que as c\u00e9lulas deixam de se dividir &#8211; \u00e9 uma das marcas do envelhecimento e contribui para a degrada\u00e7\u00e3o progressiva dos tecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m os tumores apresentam frequentemente c\u00e9lulas com tamanhos e formas muito irregulares, refletindo altera\u00e7\u00f5es nos mecanismos normais de controlo do crescimento celular. Embora esta liga\u00e7\u00e3o ainda seja pouco compreendida, existe um interesse crescente em perceber de que forma o tamanho das c\u00e9lulas influencia a progress\u00e3o do cancro, a metastiza\u00e7\u00e3o e a capacidade dos tumores escaparem ao sistema imunit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes resultados obtidos pelo grupo do GIMM poder\u00e3o igualmente revelar-se \u00fateis na \u00e1rea da biologia sint\u00e9tica. \u201cSe quisermos conceber c\u00e9lulas com fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, precisamos de conseguir controlar o seu tamanho\u201d, sublinha Fumasoni.<\/p>\n\n\n\n<p>A possibilidade de ajustar o tamanho celular sem comprometer a velocidade de crescimento representa, por isso, uma vantagem importante para este tipo de aplica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Para j\u00e1, por\u00e9m, o principal contributo do estudo \u00e9 mais fundamental: oferece uma nova perspetiva sobre a forma como a evolu\u00e7\u00e3o consegue remodelar uma das caracter\u00edsticas mais b\u00e1sicas da vida, como \u00e9 o tamanho das c\u00e9lulas.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"767\" src=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Cells_MF-1024x767.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-11798\" srcset=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Cells_MF-1024x767.png 1024w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Cells_MF-300x225.png 300w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Cells_MF-768x575.png 768w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Cells_MF.png 1117w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/div>","protected":false},"featured_media":11801,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","news_category":[39],"news_tag":[],"publications":[],"publication_date":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news\/11802"}],"collection":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11802"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11801"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11802"}],"wp:term":[{"taxonomy":"news_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_category?post=11802"},{"taxonomy":"news_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_tag?post=11802"},{"taxonomy":"publications","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publications?post=11802"},{"taxonomy":"publication_date","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publication_date?post=11802"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}