{"id":11895,"date":"2026-06-23T10:02:34","date_gmt":"2026-06-23T10:02:34","guid":{"rendered":"https:\/\/gimm.pt\/?post_type=news&#038;p=11895"},"modified":"2026-06-23T10:02:34","modified_gmt":"2026-06-23T10:02:34","slug":"e-se-a-ictericia-nao-for-um-sintoma-mas-um-escudo-protetor","status":"publish","type":"news","link":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/not\u00edcias\/e-se-a-ictericia-nao-for-um-sintoma-mas-um-escudo-protetor\/","title":{"rendered":"E se a icter\u00edcia n\u00e3o for um sintoma, mas um escudo protetor?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Miguel Soares e a sua equipa no GIMM recebem 2,5 milh\u00f5es de euros do Conselho Europeu de Investiga\u00e7\u00e3o para desenvolver uma das hip\u00f3teses mais contraintuitivas da biologia: que a mol\u00e9cula respons\u00e1vel pela icter\u00edcia pode ser uma das nossas defesas mais antigas contra a mal\u00e1ria.<\/em><\/p>\n\n<p>Durante 2500 anos, os m\u00e9dicos leram a icter\u00edcia como um sinal de alarme. O amarelecimento da pele e dos olhos, causado pelo aumento dos n\u00edveis de bilirrubina, foi sempre tratado como evid\u00eancia de que algo corria mal. Miguel Soares passou anos a construir a argumenta\u00e7\u00e3o de que, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, acontece precisamente o contr\u00e1rio: que o organismo n\u00e3o est\u00e1 a falhar, mas a combater.<\/p>\n\n<p>O seu novo projeto, <strong>KILLBILL<\/strong> (A metabolic-based defence strategy against malaria), financiado por uma ERC Advanced Grant no valor de 2,5 milh\u00f5es de euros, vai p\u00f4r essa ideia \u00e0 prova ao longo dos pr\u00f3ximos cinco anos. A equipa vai mapear as m\u00faltiplas formas como a bilirrubina pode actuar durante a infec\u00e7\u00e3o por mal\u00e1ria: como arma contra o parasita, como escudo para os tecidos do hospedeiro, e como potencial modulador das respostas imunit\u00e1rias e da efic\u00e1cia das vacinas. Os resultados poder\u00e3o reformular a forma como entendemos uma das doen\u00e7as mais antigas da humanidade.<\/p>\n\n<p>A hip\u00f3tese n\u00e3o \u00e9 especulativa. Trabalhos do laborat\u00f3rio de Soares, publicados na revista Science (ver refer\u00eancia 1) e na <em>iScience<\/em> (ver refer\u00eancia 2), j\u00e1 demonstraram que a acumula\u00e7\u00e3o de bilirrubina durante a infec\u00e7\u00e3o por mal\u00e1ria pode representar uma resposta adaptativa do organismo, e n\u00e3o um mero subproduto da doen\u00e7a. O organismo, ao que tudo indica, pode estar deliberadamente a elevar os seus pr\u00f3prios n\u00edveis de bilirrubina para limitar a propaga\u00e7\u00e3o do parasita e reduzir os danos colaterais nos tecidos.<\/p>\n\n<p><em>\u201cH\u00e1 2500 anos que a icter\u00edcia \u00e9 descrita como um sinal de doen\u00e7a. O que n\u00f3s mostr\u00e1mos \u00e9 exactamente o contr\u00e1rio: \u00e9 protec\u00e7\u00e3o,\u201d afirma Miguel Soares. \u201c\u00c9 uma verdadeira mudan\u00e7a de paradigma.\u201d<\/em><\/p>\n\n<p>A ERC Advanced Grant \u00e9 atribu\u00edda exclusivamente a investigadores com um percurso consolidado e uma capacidade demonstrada de produzir ci\u00eancia verdadeiramente inovadora. A competi\u00e7\u00e3o \u00e9 intensa: o programa financia apenas uma pequena frac\u00e7\u00e3o das candidaturas recebidas a cada ano, seleccionando os projectos que os avaliadores considerem representar um salto qualitativo genu\u00edno. Para Miguel Soares, esta \u00e9 a segunda ERC Advanced Grant da sua carreira, uma distin\u00e7\u00e3o partilhada por muito poucos cientistas na Europa e uma marca de excel\u00eancia continuada que \u00e9, em qualquer \u00e1rea, verdadeiramente rara.<\/p>\n\n<p>A atribui\u00e7\u00e3o deste financiamento reflecte tamb\u00e9m o ambiente que torna poss\u00edvel este tipo de investiga\u00e7\u00e3o. O GIMM foi criado precisamente para reunir a diversidade de compet\u00eancias que um projecto como o KILLBILL exige: conhecimento aprofundado em imunologia, biologia do parasita, metabolismo do hemo, les\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o de tecidos, e as vias de transla\u00e7\u00e3o que podem levar uma descoberta laboratorial \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Essa combina\u00e7\u00e3o, reunida sob o mesmo tecto e ancorada numa cultura de rigor cient\u00edfico, \u00e9 o que torna cred\u00edvel colocar quest\u00f5es t\u00e3o fundamentais como estas.<\/p>\n\n<p>O KILLBILL abre tamb\u00e9m uma janela sobre a liga\u00e7\u00e3o entre mal\u00e1ria e drepanocitose, h\u00e1 muito observada mas ainda mal compreendida. A drepanocitose \u00e9 conhecida por conferir protec\u00e7\u00e3o parcial contra a mal\u00e1ria, uma rela\u00e7\u00e3o anteriormente documentada pela equipa de Soares (ver refer\u00eancia 3). A hip\u00f3tese de trabalho actual \u00e9 que a bilirrubina est\u00e1 no centro de ambos os fen\u00f3menos: limitando o alcance do parasita e atenuando simultaneamente os danos celulares que este provoca.<\/p>\n\n<p><em>\u201cTemos fortes ind\u00edcios de que a bilirrubina pode estar a fazer as duas coisas ao mesmo tempo,\u201d afirma Miguel Soares. \u201cProteger contra o parasita e proteger os tecidos do organismo.\u201d<\/em><\/p>\n\n<p>Se o KILLBILL cumprir o que promete, as implica\u00e7\u00f5es v\u00e3o muito al\u00e9m da mal\u00e1ria. Uma mol\u00e9cula t\u00e3o antiga e t\u00e3o omnipresente como a bilirrubina, utilizada pelo organismo como linha de defesa de primeira resposta, poder\u00e1 inspirar uma nova classe de terap\u00eauticas enraizadas n\u00e3o na farmacologia, mas na evolu\u00e7\u00e3o. Para a drepanocitose, para os danos teciduais associados ao ferro e para as doen\u00e7as infecciosas em geral, o trabalho que agora come\u00e7a no GIMM pode revelar-se muito mais consequente do que o seu ponto de partida sugere.<\/p>\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><br\/>Refer\u00eancia 1 <a href=\"https:\/\/www.cell.com\/iscience\/fulltext\/S2589-0042(26)01333-7\">aqui<\/a>.<br\/>Refer\u00eancia 2 <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.adq6741\">aqui<\/a>.<br\/>Refer\u00eancia 3 <a href=\"https:\/\/www.cell.com\/cell\/references\/S0092-8674(11)00384-9\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":11894,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","news_category":[39],"news_tag":[],"publications":[],"publication_date":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news\/11895"}],"collection":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11895"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11894"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11895"}],"wp:term":[{"taxonomy":"news_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_category?post=11895"},{"taxonomy":"news_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_tag?post=11895"},{"taxonomy":"publications","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publications?post=11895"},{"taxonomy":"publication_date","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publication_date?post=11895"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}