{"id":12476,"date":"2026-09-29T08:42:38","date_gmt":"2026-09-29T08:42:38","guid":{"rendered":"https:\/\/gimm.pt\/news\/a-cobra-que-engoliu-o-elefante-e-o-misterio-dos-membros-que-desapareceram\/"},"modified":"2026-09-29T08:51:15","modified_gmt":"2026-09-29T08:51:15","slug":"a-cobra-que-engoliu-o-elefante-e-o-misterio-dos-membros-que-desapareceram","status":"publish","type":"news","link":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/not\u00edcias\/a-cobra-que-engoliu-o-elefante-e-o-misterio-dos-membros-que-desapareceram\/","title":{"rendered":"A cobra que engoliu o elefante e o mist\u00e9rio dos membros que desapareceram"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando o piloto e escritor Antoine de Saint-Exup\u00e9ry era crian\u00e7a imaginou uma jiboia a engolir um elefante. Anos mais tarde, transformou esse desenho de inf\u00e2ncia numa das imagens mais famosas de O Principezinho: uma cobra com um elefante dentro. Os adultos veem apenas um chap\u00e9u.<\/p>\n\n<p>Mais de 80 anos depois da publica\u00e7\u00e3o deste fen\u00f3meno liter\u00e1rio mundial, a pergunta \u2018como \u00e9 que o corpo de um vertebrado se torna t\u00e3o comprido e flex\u00edvel e, no caso das cobras, completamente desprovido de membros, continua a intrigar os cientistas (e continua tamb\u00e9m a haver d\u00favidas se uma cobra conseguiria acomodar um elefante).<\/p>\n\n<p>\u201cAs cobras n\u00e3o t\u00eam patas\u201d, explica Mois\u00e9s Mallo, Group Leader do GIMM. \u201cMas nem sempre foi assim.\u201d<\/p>\n\n<p>Os antepassados das cobras eram tetr\u00e1podes: vertebrados cujo plano corporal b\u00e1sico inclu\u00eda quatro membros. Ao longo da evolu\u00e7\u00e3o, as cobras perderam os membros, ao mesmo tempo que desenvolveram corpos extraordinariamente alongados. Algumas esp\u00e9cies de lagartos seguiram, de forma independente, caminhos evolutivos similares, adquirindo uma apar\u00eancia semelhante \u00e0 das cobras e, em alguns casos, perdendo completamente os membros.<\/p>\n\n<p>Mallo quer perceber como aconteceu esta transforma\u00e7\u00e3o, recuando at\u00e9 ao momento em que o corpo est\u00e1 a ser formado.<\/p>\n\n<p>\u201cSe todas as cobras n\u00e3o t\u00eam membros, a abordagem cl\u00e1ssica para perceber a origem desta caracter\u00edstica seria procurar aquilo que \u00e9 comum a todos estes genomas. No entanto, isto n\u00e3o pode ser algo espec\u00edfico das cobras. H\u00e1 outros tetr\u00e1podes que tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam membros\u201d, explica.<\/p>\n\n<p>Num novo projeto, recentemente financiado pelo Human Frontier Science Program (HFSP), o grupo de Mallo, no GIMM, juntou-se a duas equipas da University of Florida e da University of Turku para tentar responder \u00e0 pergunta \u201cComo perderam as cobras os seus membros?\u201d. O projeto re\u00fane tr\u00eas grupos de investiga\u00e7\u00e3o em dois continentes. O GIMM, em Portugal, vai coordenar o projeto e liderar as experi\u00eancias em ratinhos, incluindo a componente da manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. Na University of Florida, nos Estados Unidos, a equipa de Martin Cohn ficar\u00e1 respons\u00e1vel pelas experi\u00eancias em r\u00e9pteis, trabalhando com cobras e lagartos. Na Finl\u00e2ndia, a equipa de Laura Elo, da University of Turku, vai liderar a bioinform\u00e1tica e a an\u00e1lise computacional necess\u00e1rias para interpretar a enorme quantidade de dados gerada pelas duas outras equipas. O projeto come\u00e7a este setembro e ter\u00e1 um financiamento de 1,2 milh\u00f5es de d\u00f3lares ao longo de tr\u00eas anos.<\/p>\n\n<p>Durante este per\u00edodo, a equipa vai comparar cobras com lagartos que ainda t\u00eam patas, mas tamb\u00e9m com lagartos sem membros e com ratinhos. A chave est\u00e1 em observar o desenvolvimento \u00e0 medida que este vai acontecendo. Enquanto um embri\u00e3o est\u00e1 a crescer, as c\u00e9lulas da sua extremidade posterior v\u00e3o formando progressivamente o tronco e, depois, a cauda. A transi\u00e7\u00e3o entre estes dois programas de desenvolvimento \u00e9 rigorosamente regulada por redes de genes que determinam que estruturas corporais podem formar-se e onde. O trabalho anterior de Mallo mostrou que esta mudan\u00e7a do programa de forma\u00e7\u00e3o do tronco para o da cauda \u00e9 um processo fundamental no desenvolvimento dos vertebrados.<\/p>\n\n<p>\u201cA origem do projeto \u00e9 exatamente essa: comparar, durante o desenvolvimento, quando esta regi\u00e3o est\u00e1 a ser formada, o que \u00e9 diferente e o que \u00e9 igual entre os animais com membros e os que n\u00e3o t\u00eam membros\u201d, explica Mallo.<\/p>\n\n<p>Uma possibilidade \u00e9 que a perda dos membros n\u00e3o resulte simplesmente da desativa\u00e7\u00e3o dos genes que fazem crescer as patas. Pode, em vez disso, estar relacionada com o momento e o local em que o embri\u00e3o deixa de formar tronco e come\u00e7a a formar cauda. \u201c\u00c9 nesta transi\u00e7\u00e3o entre a forma\u00e7\u00e3o do tronco e a forma\u00e7\u00e3o da cauda que surgem os sinais indutores que fazem aparecer os membros e os \u00f3rg\u00e3os genitais\u201d, explica Mallo.<\/p>\n\n<p>A hip\u00f3tese \u00e9 que altera\u00e7\u00f5es no momento em que ocorre esta transi\u00e7\u00e3o possam perturbar esses sinais ou separ\u00e1-los dos tecidos que lhes respondem e que d\u00e3o in\u00edcio \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos membros. \u201cSe isto for crescer, crescer, crescer, e depois as duas coisas deixam de estar coordenadas, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 indu\u00e7\u00e3o dos membros.\u201d<\/p>\n\n<p>Mas \u00e9 preciso testar esta hip\u00f3tese. Para isso, os investigadores v\u00e3o tentar saber que genes est\u00e3o ativos nos embri\u00f5es em desenvolvimento e que regi\u00f5es do genoma est\u00e3o acess\u00edveis \u00e0 maquinaria molecular que controla a atividade dos genes. V\u00e3o comparar estes padr\u00f5es entre diferentes esp\u00e9cies, procurando as altera\u00e7\u00f5es na regula\u00e7\u00e3o que acompanham a evolu\u00e7\u00e3o de um corpo longo e sem membros.<\/p>\n\n<p>Esta abordagem pode revelar algo que vai muito al\u00e9m da origem das cobras. A investiga\u00e7\u00e3o de Mallo j\u00e1 mostrou que altera\u00e7\u00f5es no momento em que ocorrem determinados programas de desenvolvimento podem ter efeitos profundos na forma do corpo. Nas cobras, por exemplo, a atividade prolongada de reguladores do desenvolvimento, como o Oct4, tem sido associada aos seus troncos excecionalmente longos, uma descoberta que esteve na origem da colabora\u00e7\u00e3o entre os grupos de Mallo e Cohn.<\/p>\n\n<p>Mas o que tem tudo isto a ver com o elefante de Saint-Exup\u00e9ry?<\/p>\n\n<p>A capacidade de uma cobra engolir uma refei\u00e7\u00e3o enorme n\u00e3o resulta simplesmente da perda das patas. Depende tamb\u00e9m de adapta\u00e7\u00f5es do cr\u00e2nio, das mand\u00edbulas e dos m\u00fasculos, bem como de um corpo extremamente flex\u00edvel. Mas, antes de uma cobra poder evoluir para este modo de vida peculiar, a evolu\u00e7\u00e3o teve de remodelar o seu plano corporal b\u00e1sico. Primeiro surgiu o corpo longo. Depois, a extraordin\u00e1ria flexibilidade que lhe permite acomodar presas muito mais largas do que a sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a. Perceber como este plano corporal \u00e9 constru\u00eddo e como a evolu\u00e7\u00e3o alterou as instru\u00e7\u00f5es de desenvolvimento que lhe d\u00e3o origem pode, por isso, permitir compreender o animal daquele desenho de Saint-Exup\u00e9ry: a cobra que engoliu um elefante.<\/p>\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"451\" src=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagens-Noticia-Moises-1024x451.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-12472\" srcset=\"https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagens-Noticia-Moises-1024x451.png 1024w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagens-Noticia-Moises-300x132.png 300w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagens-Noticia-Moises-768x338.png 768w, https:\/\/gimm.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagens-Noticia-Moises.png 1294w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/div>","protected":false},"featured_media":12475,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","news_category":[],"news_tag":[],"publications":[],"publication_date":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news\/12476"}],"collection":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12476"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12475"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12476"}],"wp:term":[{"taxonomy":"news_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_category?post=12476"},{"taxonomy":"news_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_tag?post=12476"},{"taxonomy":"publications","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publications?post=12476"},{"taxonomy":"publication_date","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publication_date?post=12476"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}