{"id":8770,"date":"2025-06-16T11:11:46","date_gmt":"2025-06-16T11:11:46","guid":{"rendered":"https:\/\/gimm.pt\/news\/o-guardiao-amarelo-do-sangue-que-nos-protege-contra-a-malaria\/"},"modified":"2025-07-10T15:59:11","modified_gmt":"2025-07-10T15:59:11","slug":"o-guardiao-amarelo-do-sangue-que-nos-protege-contra-a-malaria","status":"publish","type":"news","link":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/not\u00edcias\/o-guardiao-amarelo-do-sangue-que-nos-protege-contra-a-malaria\/","title":{"rendered":"O Guardi\u00e3o Amarelo do sangue que nos protege contra a mal\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Investigadores descobrem que a bilirrubina, geralmente vista como um \u201cres\u00edduo\u201d do organismo, protege contra a mal\u00e1ria ao matar os parasitas que causam a doen\u00e7a.<\/em><\/p>\n\n<p>\u00c9 comum os doentes com mal\u00e1ria grave desenvolverem icter\u00edcia \u2014 uma condi\u00e7\u00e3o que se manifesta pelo amarelecimento da pele e dos olhos, devido \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o do pigmento amarelo bilirrubina, uma subst\u00e2ncia considerada um \u201cproduto residual\u201d do organismo. Agora, num estudo publicado hoje na revista cient\u00edfica <strong>Science<\/strong>, a equipa liderada por Miguel Soares, investigador principal no GIMM (Gulbenkian Institute for Molecular Medicine), descobriu que esta acumula\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, uma resposta adaptativa do corpo que confere prote\u00e7\u00e3o contra a mal\u00e1ria, ao matar os parasitas respons\u00e1veis pela doen\u00e7a. Esta descoberta inovadora revela um mecanismo inesperado de defesa do hospedeiro que pode ser explorado como estrat\u00e9gia terap\u00eautica em futuros tratamentos para a mal\u00e1ria.<\/p>\n\n<p>Os parasitas do g\u00e9nero <em>Plasmodium<\/em>, que causam a mal\u00e1ria, infetam e multiplicam-se no interior dos gl\u00f3bulos vermelhos que circulam no sangue. Nessas c\u00e9lulas, alimentam-se de hemoglobina \u2014 a prote\u00edna que utiliza o ferro, contido dentro de um uma estrutura molecular chamada hemo, para transportar oxig\u00e9nio. No final do seu ciclo de expans\u00e3o, provocam a lise (ruptura) dos gl\u00f3bulos vermelhos, libertando o restante da hemoglobina que n\u00e3o ingeriram, na corrente sangu\u00ednea.<\/p>\n\n<p>O laborat\u00f3rio liderado por Miguel Soares tem demonstrado ao longo dos anos que quando a hemoglobina \u00e9 libertada na corrente sangu\u00ednea larga o hemo que \u00e9 altamente t\u00f3xico para o hospedeiro e \u00e9 a causa do desenvolvimento de formas graves de mal\u00e1ria. Para evitar a acumula\u00e7\u00e3o do hemo na circula\u00e7\u00e3o o hospedeiro induz uma s\u00e9rie de rea\u00e7\u00f5es bioqu\u00edmicas complexas que culminam na produ\u00e7\u00e3o de bilirrubina, um pigmento amarelo que se pensava n\u00e3o ser mais que um \u201cproduto residual\u201d t\u00f3xico.<\/p>\n\n<p>A conjuga\u00e7\u00e3o da bilirrubina no f\u00edgado permite a sua excre\u00e7\u00e3o no intestino e limita a acumula\u00e7\u00e3o de bilirrubina na circula\u00e7\u00e3o. Quando h\u00e1 acumula\u00e7\u00e3o de bilirrubina na circula\u00e7\u00e3o, o mesmo \u00e9 considerado como sendo revelador de uma disfun\u00e7\u00e3o do f\u00edgado (hep\u00e1tica). Esta associa\u00e7\u00e3o contribuiu ao longo de s\u00e9culos para a ideia de que a icter\u00edcia n\u00e3o \u00e9 mais do que uma resposta patol\u00f3gica (causadora de doen\u00e7a). Contudo, um n\u00famero crescente de descobertas tem vindo a demonstrar que a bilirrubina tem v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas importantes, o que levou a equipa a explorar esta hip\u00f3tese no contexto da mal\u00e1ria. \u201cPara nosso espanto, descobrimos que talvez a fun\u00e7\u00e3o mais importante da bilirrubina \u00e9 de nos proteger contra a mal\u00e1ria atrav\u00e9s de um mecanismo que n\u00e3o antecip\u00e1vamos: mata o parasita\u201d, explica Miguel Soares, coordenador do estudo.<\/p>\n\n<p>A investigadora Ana Figueiredo, primeira autora do estudo que finaliza o seu de doutoramento com Miguel Soares no GIMM, descobriu inicialmente que a mal\u00e1ria assintom\u00e1tica apresentava n\u00edveis elevados de bilirrubina no plasma. Em ratinhos, verificou uma resposta semelhante, com aumento dos n\u00edveis de bilirrubina em resposta \u00e0 infe\u00e7\u00e3o, o que lhes conferia prote\u00e7\u00e3o contra a doen\u00e7a. Pelo contr\u00e1rio, os ratinhos incapazes de produzir bilirrubina morriam de mal\u00e1ria. No entanto, quando lhes era administrada bilirrubina, estes tornavam-se resistentes \u00e0 doen\u00e7a. Estes resultados demonstram de forma clara que esta mol\u00e9cula tem um papel central na prote\u00e7\u00e3o contra a mal\u00e1ria. \u201cAtrav\u00e9s de v\u00e1rias experi\u00eancias complementares, tanto <em>in vivo<\/em> como <em>in vitro<\/em>, demonstr\u00e1mos que a bilirrubina bloqueia a prolifera\u00e7\u00e3o e virul\u00eancia (capacidade de induzir doen\u00e7a) dos parasitas <em>Plasmodium<\/em> dentro dos gl\u00f3bulos vermelhos, impedindo-os de se alimentarem e de produzirem energia, o que conduz \u00e0 sua morte\u201d, explica Ana Figueiredo.<\/p>\n\n<p>A mal\u00e1ria continua a ser uma doen\u00e7a com elevada mortalidade a n\u00edvel global, especialmente entre crian\u00e7as com menos de cinco anos. S\u00f3 em 2023, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade estimou cerca de 560 mil mortes por mal\u00e1ria em todo o mundo. \u201cDescobrir que uma mol\u00e9cula produzida pelo pr\u00f3prio organismo durante a infe\u00e7\u00e3o pode proteger contra a mal\u00e1ria d\u00e1-nos uma nova perspetiva sobre os mecanismos de defesa do corpo e abre possibilidades entusiasmantes para o futuro. Talvez, um dia, esta descoberta possa conduzir a novas abordagens terap\u00eauticas. Estou extremamente feliz por ter contribu\u00eddo para algo t\u00e3o importante\u201d, partilha Ana Figueiredo. \u201cEsta descoberta abre portas para explorar at\u00e9 que ponto esta estrat\u00e9gia natural de defesa do organismo pode ser usada terapeuticamente, de forma a aliviar o enorme impacto da mal\u00e1ria nas popula\u00e7\u00f5es humanas\u201d, conclui Miguel Soares.<\/p>\n\n<p>Figueiredo A, Rastogi ST, Ramos S, Nogueira F, De Villiers K, Gon\u00e7alves de Sousa AG, Votborg-Nov\u00e9l L, von Wedel C, Tober-Lau P, Jentho E, Pagnotta S, Mesquita M, Cardoso S, Bortolussi G, Muro AF, Tranfield EM, Thibaud J, Duarte D, Sousa AL, Pinto SN, Kitoko J, Mombo-Ngoma G, Mischlinger J, Junttila S, Alenquer M, Amorim MJ, Vasavda C, Bosma PJ, Violante S, Drotleff B, Paix\u00e3o T, Portugal S, Kurth F, Elo LL, Paul BD, Martins R, Soares MP (2025). <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.adq6741\">A metabolite-based resistance mechanism against malaria<\/a>. <strong>Science<\/strong>. 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