{"id":8795,"date":"2025-06-20T13:49:52","date_gmt":"2025-06-20T13:49:52","guid":{"rendered":"https:\/\/gimm.pt\/news\/como-uma-hormona-do-stress-impede-que-as-plantas-abram-as-primeiras-folhas\/"},"modified":"2025-07-10T15:58:36","modified_gmt":"2025-07-10T15:58:36","slug":"como-uma-hormona-do-stress-impede-que-as-plantas-abram-as-primeiras-folhas","status":"publish","type":"news","link":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/not\u00edcias\/como-uma-hormona-do-stress-impede-que-as-plantas-abram-as-primeiras-folhas\/","title":{"rendered":"Como uma hormona do stress impede que as plantas abram as primeiras folhas"},"content":{"rendered":"\n<p>Um novo estudo, publicado hoje na revista <strong>EMBO Reports<\/strong>* e realizado no laborat\u00f3rio liderado por Paula Duque, investigadora do Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM), revela uma fun\u00e7\u00e3o inesperada de uma hormona vegetal associada ao stress: o \u00e1cido absc\u00edsico (ABA) impede que as folhas embrion\u00e1rias das plantas, chamadas cotil\u00e9dones, se abram enquanto ainda est\u00e3o no escuro.<\/p>\n\n<p>Quando uma semente enterrada no solo germina, a jovem planta encontra-se num ambiente sem luz e com recursos limitados. Para sobreviver, cresce rapidamente para atingir a superf\u00edcie e precisa de controlar de forma precisa o momento em que ativa os processos que a preparam para a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz. Um passo cr\u00edtico nesta transi\u00e7\u00e3o \u00e9 a abertura dos cotil\u00e9dones \u2013 pequenas folhas embrion\u00e1rias que, ao abrirem, come\u00e7am a captar a energia solar e a realizar fotoss\u00edntese, marcando o in\u00edcio do crescimento autotr\u00f3fico da planta. O novo estudo mostra que, antes da exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz, \u00e9 o ABA acumulado nos cotil\u00e9dones que impede a sua abertura, prevenindo uma ativa\u00e7\u00e3o prematura deste processo.<\/p>\n\n<p>\u201cO ABA \u00e9 conhecido por ajudar as plantas a lidar com situa\u00e7\u00f5es de stress, como a seca ou a salinidade elevada\u201d, explica Paula Duque. \u201cMas descobrimos agora que tamb\u00e9m tem um papel-chave no normal desenvolvimento da jovem planta, funcionando como um trav\u00e3o molecular que impede que os cotil\u00e9dones se abram demasiado cedo.\u201d<\/p>\n\n<p>Esta descoberta foi feita a partir de experi\u00eancias em Arabidopsis thaliana, uma planta modelo amplamente utilizada em investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Os investigadores analisaram n\u00e3o s\u00f3 os efeitos fisiol\u00f3gicos do ABA na abertura dos cotil\u00e9dones, mas tamb\u00e9m os mecanismos gen\u00e9ticos e moleculares que est\u00e3o por tr\u00e1s desta fun\u00e7\u00e3o inesperada da hormona. O estudo mostra que o ABA interfere de forma significativa na forma como os genes s\u00e3o lidos e processados durante esta fase cr\u00edtica do desenvolvimento vegetal.<\/p>\n\n<p>Mais concretamente, a hormona atua sobre um processo chamado splicing alternativo, uma esp\u00e9cie de edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que define como a informa\u00e7\u00e3o contida no DNA \u00e9 transformada em prote\u00ednas. Este processo permite \u00e0s plantas gerar diferentes vers\u00f5es das suas prote\u00ednas a partir dos mesmos genes, consoante as condi\u00e7\u00f5es ambientais. O estudo revela que o ABA modula esse processo atrav\u00e9s de duas prote\u00ednas-chave da fam\u00edlia das prote\u00ednas SR (ricas em serina e arginina): RS40 e RS41.<\/p>\n\n<p>Estas prote\u00ednas atuam como reguladores do splicing e s\u00e3o essenciais para ajustar os padr\u00f5es de express\u00e3o gen\u00e9tica da planta em resposta \u00e0 luz. O estudo mostra que, no escuro, o ABA reduz a atividade destas prote\u00ednas, impedindo as altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas necess\u00e1rias para a abertura dos cotil\u00e9dones. Al\u00e9m disso, os autores identificaram um mecanismo adicional de controlo: a repress\u00e3o exercida pelo ABA depende de processos de fosforila\u00e7\u00e3o \u2013 uma modifica\u00e7\u00e3o qu\u00edmica que regula a fun\u00e7\u00e3o das prote\u00ednas.<\/p>\n\n<p>\u201cEsta descoberta oferece uma nova perspetiva sobre a forma como as plantas integram sinais hormonais e ambientais para controlarem o seu desenvolvimento\u201d, destaca Guiomar Mart\u00edn, primeira autora do estudo. \u201cAl\u00e9m de ser cientificamente fascinante, pode ter implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas relevantes, por exemplo na cria\u00e7\u00e3o de culturas com um desenvolvimento precoce mais eficiente ou com maior resist\u00eancia a condi\u00e7\u00f5es adversas.\u201d<\/p>\n\n<p>Embora \u00e0 primeira vista este processo possa parecer um detalhe t\u00e9cnico da biologia das plantas, compreender como a jovem planta ajusta o seu desenvolvimento ao ambiente envolvente \u00e9 fundamental para otimizar o crescimento e a produtividade das culturas agr\u00edcolas. A regula\u00e7\u00e3o da abertura dos cotil\u00e9dones tem impacto direto na sobreviv\u00eancia e no vigor das plantas, especialmente em ambientes com pouca luz ou sujeitos a climas imprevis\u00edveis.<\/p>\n\n<p>Ao revelar esta nova camada de regula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica mediada pelo ABA \u2013 um ponto de intersec\u00e7\u00e3o entre os sinais hormonais, ambientais e moleculares \u2013, o trabalho evidencia como processos aparentemente simples podem esconder uma complexidade biol\u00f3gica not\u00e1vel. Tamb\u00e9m refor\u00e7a a import\u00e2ncia da investiga\u00e7\u00e3o fundamental em biologia vegetal, cujo conhecimento pode, a m\u00e9dio prazo, inspirar estrat\u00e9gias inovadoras no \u00e2mbito da agricultura sustent\u00e1vel, da seguran\u00e7a alimentar e da adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n<p>Mart\u00edn G<em>, Confraria A, Zapata I, Larran AS, Q\u00fcesta J, Duque P<\/em> (2025). <a href=\"https:\/\/www.embopress.org\/doi\/full\/10.1038\/s44319-025-00495-5\">Cotyledon opening during seedling deetiolation is determined by ABA-mediated splicing regulation<\/a>. <strong>EMBO Reports<\/strong>. DOI: 10.1038\/s44319-025-00495-5<\/p>\n\n<p><em>O estudo foi financiado pela Funda\u00e7\u00e3o para a Ci\u00eancia e a Tecnologia (FCT), pela EMBO \u2013 European Molecular Biology Organization, pela Uni\u00e3o Europeia e pelo Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Inova\u00e7\u00e3o em Espanha.<\/em><\/p>\n","protected":false},"featured_media":8794,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","news_category":[39],"news_tag":[],"publications":[],"publication_date":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news\/8795"}],"collection":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8795"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8794"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"news_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_category?post=8795"},{"taxonomy":"news_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/news_tag?post=8795"},{"taxonomy":"publications","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publications?post=8795"},{"taxonomy":"publication_date","embeddable":true,"href":"https:\/\/gimm.pt\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/publication_date?post=8795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}