GIMM Care Science Rounds destaca avanços na genética e neuromodulação da doença de Parkinson – GIMM GIMM Care Science Rounds destaca avanços na genética e neuromodulação da doença de Parkinson – GIMM

  12 de Fevereiro, 2026

GIMM Care Science Rounds destaca avanços na genética e neuromodulação da doença de Parkinson

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A última sessão das Science Rounds, a 10 de fevereiro, reuniu clínicos e investigadores no GIMM para explorar a doença de Parkinson a partir de perspetivas complementares – desde investigação genética centrada no doente até estratégias experimentais de neuromodulação que podem redefinir terapias futuras.

Leonor Correia Guedes, do Serviço de Neurologia da Unidade Local de Saúde Santa Maria, abriu a sessão sublinhando a complexidade clínica e genética da doença de Parkinson, com a palestra Phenotype-driven translational research in genetic parkinsonism. A sua equipa no hospital dedica-se ao parkinsonismo de origem genética e a outras doenças do movimento hereditárias, através de caracterização clínica detalhada e estudo de coortes de doentes.

“Temos de ter a certeza, em primeiro lugar, sobre aquilo de que estamos a falar”, sublinhou a neurologista, referindo-se à importância de critérios diagnósticos rigorosos. “Se não selecionarmos corretamente os doentes, nunca vamos encontrar o que é relevante.”

Recordou ainda que o Parkinson não é apenas uma perturbação motora, mas uma doença multissistémica que exige imagiologia, biomarcadores e escalas clínicas validadas para captar todo o seu espectro. Desde o início dos anos 2000, o seu grupo tem contribuído para mapear a paisagem genética do Parkinson em Portugal, incluindo contributos importantes para a identificação de mutações no gene LRRK2 – hoje reconhecidas como uma das causas monogénicas mais frequentes da doença na Europa.

“Portugal tem uma das maiores frequências de Parkinson familiar associada a esta mutação”, destacou, sublinhando a relevância das coortes nacionais para consórcios internacionais de investigação.

Para além da genética, a equipa está a expandir a investigação para fases prodrómicas e pré-clínicas da doença. Ao estudar portadores assintomáticos de mutações de risco, procuram identificar biomarcadores precoces de neurodegeneração. “Conseguimos identificar que estes portadores já têm neurodegeneração, apesar de ainda não manifestarem a doença”, explicou, apontando a ressonância magnética de neuromelanina como ferramenta promissora.

O grupo está também profundamente envolvido em questões éticas relacionadas com o aconselhamento genético. Muitos doentes, afirmou, sentem-se pouco informados sobre questões genéticas, mas mostram-se disponíveis para realizar testes se isso puder influenciar o tratamento. “A maioria aceitaria fazer testes genéticos para ter acesso a medicação diferente”, relatou – um dado relevante numa área em que as terapias modificadoras da doença ainda estão a emergir.

Complementando esta perspetiva clínica, Luísa Lopes, do GIMM, apresentou um projeto translacional que cruza neurociência e neurocirurgia, com a palestra Creating a non-Invasive Neuron-specific Neuromodulation. No GIMM, Luísa estuda o envelhecimento sináptico, mas esta colaboração em particular resultou do contacto de um neurocirurgião que procurava testar uma ideia ambiciosa: reproduzir a estimulação cerebral profunda sem implantes.

A estimulação cerebral profunda é eficaz em fases avançadas da doença de Parkinson, mas é invasiva e, em alguns casos, pode causar efeitos adversos que obrigam à suspensão do tratamento. A equipa de Luísa Lopes explorou então uma alternativa baseada em luminopsinas – proteínas modificadas que permitem ativar neurónios através da utilização de uma pequena molécula química. “Achámos que era uma ideia muito interessante”, recordou a neurocientista.

Recorrendo a entrega génica viral, a equipa ativou uma população neuronal específica num modelo murino de Parkinson. O resultado traduziu-se em melhorias mensuráveis no comportamento motor. “Observámos uma melhoria significativa”, afirmou a Group Leader, descrevendo aumento de velocidade e redução da imobilidade após o tratamento.

Embora ainda em fase inicial, o trabalho aponta para um futuro em que a neuromodulação poderá ser mais seletiva e menos invasiva. “Como a doença de Parkinson envolve circuitos desregulados, é um alvo muito adequado para estratégias neuronais específicas”, concluiu.

Em conjunto, as palestras ilustraram o poder do diálogo interdisciplinar: desde coortes de doentes e conhecimento genético até ferramentas experimentais que poderão um dia traduzir-se em novas terapias. Sublinhou-se também um objetivo comum – compreender o Parkinson não como uma doença única, mas como um sistema dinâmico que exige colaboração entre clínica e laboratório.

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