Num novo estudo do GIMM, investigadores mostram que, mesmo em ambientes com quantidades muito diferentes de nutrientes, as células conseguem encontrar soluções genéticas surpreendentemente semelhantes para lidar com falhas na replicação do ADN – um processo essencial e frequentemente desregulado no cancro.
Copiar o ADN corretamente antes de cada divisão celular é uma tarefa essencial para a vida. Mas quando este processo falha – algo que acontece muitas vezes no cancro – as células entram em stress e precisam de encontrar formas de sobreviver. Um novo estudo do Genome Maintenance and Evolution Lab, publicado na revista Molecular Systems Biology, mostra que, mesmo em ambientes muito diferentes, as células encontram praticamente as mesmas soluções genéticas para lidar com esse problema.
Neste trabalho, os investigadores quiseram perceber se a quantidade de açúcar (glucose) no ambiente influencia a forma como as células se adaptam ao chamado “stress de replicação do ADN” — uma situação em que o ADN tem dificuldade em copiar-se corretamente. Usaram para isso leveduras, organismos simples, mas muito semelhantes às células humanas em processos fundamentais, e acompanharam a sua evolução ao longo de mil gerações (o equivalente a vários anos de divisões celulares em humanos).
Os níveis de glucose afetaram o quanto as células sofriam com os defeitos na replicação do ADN e a rapidez com que se adaptaram, não alterando as soluções genéticas que evoluíram para lidar com esse problema. Ou seja, independentemente da quantidade de açúcar disponível, as mesmas mutações em conjuntos específicos de genes surgiram repetidamente. Estas mutações estão ligadas à organização dos cromossomas, à própria replicação do ADN, à resposta a danos genéticos e até a um complexo que regula a forma como os genes são ativados.
“Foi fascinante ver que, apesar de ambientes tão distintos, as células evoluem soluções tão semelhantes”, explica Mariana Natalino, primeira autora do estudo. “Estes padrões podem ajudar-nos a antecipar como certas doenças se adaptam e resistem.”
Como certos tumores também enfrentam stress de replicação e diferentes níveis de nutrientes, perceber estes caminhos comuns de adaptação pode ser uma peça-chave para antecipar – e talvez travar – os mecanismos que lhes permitem crescer ou resistir a tratamentos.
