Mudança da hora do relógio, ritmos circadianos e o sono – GIMM Mudança da hora do relógio, ritmos circadianos e o sono – GIMM

  30 de Outubro, 2024

Mudança da hora do relógio, ritmos circadianos e o sono



No último fim de semana, atrasámos os relógios para sair do horário de verão. Qual é a opinião científica sobre este tema? Perguntámos à Cátia Reis, cronobióloga e somnologista do Luísa Lopes Lab, para partilhar a sua opinião connosco.




“Os ritmos circadianos são ritmos biológicos com uma duração de aproximadamente 24h, ou seja, cerca de 1 dia, daí serem denominados de ritmos circadianos. Estes ritmos são endógenos, têm uma origem genética, funcionam mesmo na ausência de pistas externas, mas sincronizam com pistas externas. O sincronizador primordial dos nossos ritmos biológicos é o estímulo luminoso, sendo tão importante a luz como a sua ausência para uma adequada sincronização ao ciclo dia/noite. Ou seja, o nosso relógio biológico é sincronizado pelo relógio solar. 

Os nossos ritmos circadianos, que são sincronizados pela luz, modulam a nossa fisiologia, do metabolismo ao comportamento. O ritmo circadiano comportamental fundamental, e mais facilmente percecionado, é o ritmo do sono/vigília. O ritmo sono/vigília é, no entanto, acompanhado por outros ritmos biológicos, também eles com variação circadiana tais como a temperatura, a produção de algumas hormonas tais como a melatonina, o cortisol ou a testosterona. Todos estes ritmos variam de uma forma cíclica e concertada, proporcionando um bom sono e uma boa vigília. Esta sincronização é tanto maior quanto a sincronização entre o horário solar e o relógio biológico. 

Vários países, incluindo Portugal, adotam uma alteração da hora social nos períodos da primavera e do outono. Esta alteração trata-se do adiantamento artificial do relógio social em 1h que ocorre após a primavera voltando à hora padrão no período do outono, que ocorreu no passado fim-de-semana (às 2h da manhã passaram a ser 1h da manhã de acordo com a hora social/do relógio). Ao longo do ano os dias são naturalmente mais pequenos no inverno, crescendo com a aproximação da primavera e ao longo dos séculos os organismos adaptaram-se a esta variação anual da exposição à luz, sincronizando com a mesma. Este adiantamento artificial da hora social no período da primavera origina um desalinhamento entre a hora solar e a hora biológica. A hora de adormecer mantêm-se a mesma (pois é ditada pelo relógio biológico como dito anteriormente) no entanto, a hora de acordar ocorre mais cedo, pois irá ser ditada pela hora social imposta pelo relógio social. Desta forma, assistimos a uma redução do tempo total de sono neste período (mais evidente nas pessoas noctívagas) que por vezes poderá mesmo manter-se durante todo o período do horário de verão. Conduzindo a estados de privação aguda no período de transição, e potencialmente crónica ao longo de todo o período de verão, aumentando a vulnerabilidade para a doença. 

Nos últimos anos temos assistido à discussão da temática da mudança da hora, onde esta questão tem sido amplamente debatida. A comunidade científica tem alertado para a importância da sincronização dos ritmos biológicos à hora solar e como tal, para a manutenção ao longo do ano da hora social padrão. Desta forma mantendo o melhor alinhamento possível entre estes relógios (biológico, solar e social).


Posto isto apenas posso dizer… façam atividades ao ar livre para uma melhor sincronização e cuidem do vosso sono, ele é fundamental para assegurar uma boa vigília!”



Cátia Reis 

5 1 vote
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comments
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários
0
Would love your thoughts, please comment.x