É fascinante perceber como, perante a mesma pergunta, diferentes cientistas apresentam respostas distintas, ainda que todos disponham das evidências científicas necessárias para sustentar as suas conclusões. Muitas complementam-se; outras seguem em paralelo.
No palco do GIMM Fest, há um dilema que junta todos: Que perguntas precisamos de fazer para construir uma teoria integrada do envelhecimento?
A dúvida é lançada por João Pedro de Magalhães, que modera a primeira mesa-redonda do festival. Vera Gorbunova, Björn Schumacher, Peter Adams, Andrei Seluanov, Claudio Franceschi e Elsa Logarinho partilham convicções, certezas e novos caminhos de reflexão.
Para Vera Gorbunova, a resposta é clara: a epigenética desempenha um papel determinante — visão que Andrei Seluanov e Elsa Logarinho acompanham. Já Björn Schumacher alerta para um detalhe essencial: “Na discussão sobre como unificar a teoria do envelhecimento, é importante distinguir o ‘porquê envelhecemos’, questão que a biologia evolutiva consegue responder, do ‘como envelhecemos’.” Será através da inflamação? Da proteostase? Do metabolismo mitocondrial? “O DNA é o primeiro problema que a evolução tem de reparar; é o mecanismo que está sempre presente”, resume.
A palavra passa a Peter Adams, que não hesita em apontar a homeostase como o primeiro sistema a “falhar”.
Pai do conceito de inflammaging, Claudio Franceschi insiste: “A única ideia unitária de envelhecer é inflamar”, pois muitos dos danos que ocorrem no corpo traduzem-se em inflamação. Ainda assim, lembra que cada célula — tal como cada organismo e até cada população — envelhece de forma distinta, apesar de existirem mecanismos simples e comuns.
“Em que momento começa o envelhecimento?”, questiona Elsa Logarinho, chamando a atenção para a heterogeneidade: cada célula possui “chaves” diferentes.
Quando a plateia aguarda respostas, surgem novas perguntas, combustível para a curiosidade científica: Porque é que os bebés nascem novos, se resultam da fusão de duas células já em envelhecimento? Porque envelhece um rato vinte vezes mais rápido do que um humano?
Enquanto as pessoas investem na sua manutenção, levando a celulas com mais robustez a nivel genético, os roedores reproduzem-se o mais rápido possível, antes de caírem nas garras de um predador.
“In vitro, as células têm mecanismos para se autorrepararem e, mesmo acumulando mutações, podem viver para sempre”, explica Björn Schumacher. “Em teoria, a vida pode ser perpetuada indefinidamente e a imortalidade tornar-se uma possibilidade.” Afinal, quem nunca sonhou com a imortalidade?
Pela primeira vez, o hipotálamo — a região do cérebro que integra os sistemas nervoso e endócrino — surge no debate como determinante nos fatores sistémicos que influenciam o envelhecimento. Quando a homeostase falha, manifesta-se o inflammaging.
Sobre o sistema imunitário, Claudio recua 500 milhões de anos, até ao surgimento dos linfócitos T e do timo, marcos da complexidade crescente do ser humano — um preço que ainda hoje pagamos. “O sistema imunitário atual aumenta a vulnerabilidade ao envelhecimento, enquanto o mais antigo, mais simples, está na origem da inflamação”, explica.
“Um envelhecimento acelerado do cérebro ou do sistema imunitário aumenta o risco de várias doenças associadas à idade”, lembra Schumacher. Para Vera Gorbunova, no entanto, estes dois sistemas “não são indispensáveis para a vida.”
O envelhecimento traz consigo dois fenómenos relacionados com o sistema imunitário: o aumento das doenças autoimunes e a produção em massa de anticorpos. Nesta fase, o corpo começa a reagir contra as suas próprias moléculas, sobretudo quando estas mudam de localização — por exemplo, se saírem da mitocôndria para o citoplasma e, daí, para o sangue. Um círculo vicioso onde o stress também entra em jogo.
“O stress mata-nos”, garante Vera. Mas, acrescenta, algum nível de stress é essencial ao equilíbrio do organismo — seja ele provocado pela restrição calórica ou pela prática de exercício físico.


