A biologia molecular não podia deixar de estar no centro da apresentação de Claus Azzalin, investigador do GIMM e da Faculdade de Medicina de Lisboa. Para explicar como chegou ao processo de reparação dos telómeros, viajou pelo DNA, por moléculas, células e proteínas, lembrou fusões de cromossomas, perda de material genético, senescência e a sua replicação, fatores decisivos no processo envelhecimento.
Encurtados a cada divisão celular, a proteção dos telómeros e o controlo da sua instabilidade abrem caminho ao retardar de doenças relacionadas com a idade. Para a reparação dos telómeros partidos, importa o tipo de dano bem como a quantidade de dano em simultâneo.
Maria A. Ermolaeva, do Leibniz Institute on Aging, em Jena, na Alemanha, abriu a sua apresentação com uma afirmação forte: “Um estilo de vida saudável é um luxo, não a norma. ” Esta ideia deu o mote para a sua reflexão sobre a influência da alimentação, do exercício físico e do sono no acelerar ou retardar do envelhecimento, bem como sobre a forma de garantir os benefícios de um estilo de vida saudável a quem não tem esse “luxo”.
Maria constatou que a exposição da pele (pelo menos 30% do maior órgão do corpo humano, uma vez por semana) à NB-UVB (Narrowband Ultraviolet B) — uma fototerapia já utilizada no tratamento de doenças de pele como psoríase, eczema e vitiligo — pode replicar os efeitos positivos da restrição calórica, através da modulação das mitocôndrias (a “central energética” das células, responsável pela respiração).
A sua investigação aborda também como mimetizar os benefícios de um sono de qualidade — variável de pessoa para pessoa, sendo suficientes apenas cinco horas para uns e nunca menos de oito para outros — e tem como objetivo ajudar aqueles que não conseguem dormir e sofrem de privação de sono, independentemente do número de horas que repousam. “A qualidade do sono é essencial para o nosso bem-estar diário, e a literatura associa os distúrbios do sono a características do envelhecimento precoce”, explicou.
Ao longo dos dois dias do Festival GIMM muitos foram os oradores a falar da importância de “mexer” nas células senescentes, nas suas características e nas suas funções. Mas, só Heinrich Jasper, da Genentech, empresa de biotecnologia membro do Grupo Roche, responsável pelo desenvolvimento de investigação e de medicamentos para doenças fatais, abordou a necessidade de melhorar a capacidade regenerativa das células estaminais, as que são indiferenciadas e capazes de se tornarem qualquer uma das outras células existentes no organismo, incluindo as sanguíneas, nervosas, musculares, cardíacas, glandulares e da pele.
A tarde continuou e Brian Kennedy, da National University of Singapore e membro do Scientific Advisory Board do GIMM voltou ao palco para conduzir a conversa com Heinrich Jasper, Maria Ermolaeva, Maria Mittelbrunn e Ron DePinho. Juntos, reforçaram algumas ideias faladas em cada uma das suas sessões.
Das várias estratégias investigadas para atrasar a imunosenescência, Maria Mittelbrunn não apostaria todas as suas fichas no rejuvenescimento do sistema imunitário, mas sim em reprogramar o progenitor hematopoiético, enquanto Ron DePinho selecionou os medicamentos senolíticos para tratar o cancro como uma prioridade.
O interesse, ainda incipiente, da indústria farmacêutica pelo aumento da longevidade também foi um assunto abordado. As empresas continuam a falar dos caminhos para tratar as doenças crónicas relacionadas com a idade, deixando para trás a transição para a prevenção. “Estão a ser feitos esforços para tentar identificar melhores biomarcadores, para trabalhar com relógios moleculares que comprovem que os marcadores mudam”, resume Heinrich Jasper. Mas há um longo caminho a percorrer até se chegar aos ensaios clínicos em animais e depois em humanos que assegurem que os doentes obtêm benefícios na sua saúde. “As farmacêuticas crescem para lá da supervisão científica. É preciso pensar em uni-las”, afirma Brian Kennedy. “Tudo o que não ameace a vida, como viver mais saudável e por mais tempo, tem que ser como água benta.”




