As pessoas, tal como os animais, podem encarar uma situação ou acontecimento de uma forma otimista ou pessimista. Se há 50% de probabilidade de chuva, um otimista confia na sorte e arranca de bicicleta para o trabalho, enquanto um pessimista pega no carro e equipa-se com guarda-chuva e impermeável.
O que um estudo coordenado pelo Group Leader do GIMM, Rui Oliveira, feito em peixes zebra, veio agora demonstrar é que este traço de personalidade pode ter implicações bastante mais sérias do que apanhar uma molha ou gastar gasolina sem necessidade.
Publicado na revista Translational Psychiatry, do grupo Nature, mostrou-se que este viés cognitivo – a tendência de interpretar situações ambíguas de forma otimista ou pessimista – , é consistente ao longo do tempo no peixe-zebra (zebrafish) e tem impacto direto na resposta ao stress. E, como consequência, na progressão do cancro.
“Este estudo veio mostrar como a variação entre indivíduos na susceptibilidade a doenças, como pode ser ilustrado com a progressão de cancro (melanoma), pode ser explicada por vieses cognitivos que levam indivíduos pessimistas a percepcionar estímulos ambíguos como falsos sinais de alarme, sobre ativando a sua resposta ao stress com consequências deletérias para o organismo”, explica Rui Oliveira.
Na primeira parte do trabalho, os investigadores classificaram os animais de acordo com os perfis comportamentais. E perceberam que, ao contrário dos pessimistas, os otimistas apresentavam menor reatividade ao stress, regulação mais equilibrada do eixo neuroendócrino (HPI) e maior resiliência fisiológica. E a uma resposta ao stress mais exacerbada corresponde maior probabilidade de desenvolver doenças como o cancro.
Utilizando um modelo de melanoma em peixe-zebra, os autores observaram que os peixes pessimistas desenvolvem tumores mais cedo e que estes progridem mais rapidamente. Por outro lado, os peixes otimistas mostraram resistência à progressão tumoral — evidenciando que o traço psicológico (otimismo/pessimismo) influencia diretamente a saúde física.
Para chegar a esta conclusão, juvenis transgénicos (modificados para o aparecimento de melanoma) foram classificados como otimistas ou pessimistas antes do aparecimento do tumor. Metade de cada grupo foi exposta a stress crónico; a outra metade permaneceu em condições de controlo, com a progressão tumoral monitorizada semanalmente. Resultado: Mesmo sem stress, os pessimistas desenvolveram tumores mais cedo e em maior percentagem.
Por outro lado, o stress crónico acelerou a progressão do cancro nos otimistas, mas não alterou significativamente nos pessimistas, que já tinham alta incidência. Além disso, marcadores de proliferação celular mostraram maior atividade tumoral nos pessimistas desde o início.
Perante todos estes dados, deduz-se que o otimismo é uma espécie de armadura que oferece resiliência fisiológica e proteção contra doenças relacionadas com o stress.
E no seu caso, vê o copo meio cheio ou meio-vazio?
