Inovação imunodiagnóstica desenvolvida em Lisboa: teste ao sangue identifica de forma precisa o cancro em fase precoce, sem falsos positivos.
Uma equipa de investigação da Fundação GIMM – Gulbenkian Institute for Molecular Medicine, em colaboração com o Hospital de Santa Maria e a Universidade de Cambridge, liderada pelo Professor Gonçalo Bernardes e pela Doutora Emma Yates, desenvolveu uma plataforma imunodiagnóstica inovadora, capaz de detetar o cancro em fases iniciais e prever a eficácia de tratamentos oncológicos através de um simples teste ao sangue.
Publicado na revista Nature Communications, o estudo demonstra que esta tecnologia mede alterações subtis na resposta imunitária no plasma, através da identificação de resíduos específicos de aminoácidos em proteínas, permitindo uma deteção precoce e precisa de tumores.
Principais Resultados:
- Detetou 78% dos casos de cancro sem falsos positivos numa amostra de 170 participantes.
- Demonstrou elevada precisão, com uma área sob a curva ROC (AUROC) de 0,95.
- Superou as limitações das biópsias líquidas convencionais baseadas em DNA tumoral, sobretudo na deteção de tumores em fases iniciais.
- Identificou corretamente 98% dos doentes com cancro da mama avançado que responderam a terapias com inibidores de CDK4/6.
Como funciona?
A plataforma mede a concentração de cinco resíduos específicos de aminoácidos (lisina, triptofano, tirosina e duas formas de cisteína) em proteínas do plasma, refletindo alterações na vigilância imunitária típicas do desenvolvimento tumoral. Com recurso a algoritmos de inteligência artificial, os investigadores identificaram padrões associados à presença de cancro, à sua localização e à probabilidade de resposta a tratamentos.
Esta tecnologia, desenvolvida pela equipa da Fundação GIMM, representa uma abordagem inovadora no campo do diagnóstico oncológico.
Impacto Esperado:
“Desenvolvemos uma tecnologia revolucionária que, tanto quanto sabemos, permite pela primeira vez detetar o cancro e outras doenças através da análise de alterações ao nível dos aminoácidos — os blocos que constituem todas as proteínas. Ao contrário das abordagens tradicionais, que analisam milhares de proteínas, o nosso método foca-se nas alterações destes elementos fundamentais, proporcionando uma leitura mais clara e sensível da resposta imunitária do hospedeiro. Esta abordagem única permite uma deteção mais precoce e precisa de doenças como o cancro”, refere Gonçalo Bernardes, antigo investigador principal do iMM e Professor na Universidade de Cambridge.
“Esta plataforma abre uma nova porta para o diagnóstico precoce do cancro e para uma medicina mais personalizada. É simples, escalável e pode complementar as estratégias já existentes, como as baseadas em genética ou DNA tumoral circulante”, acrescenta Cong Tang, investigador sénior de pós-doutoramento na Fundação GIMM e primeiro autor do estudo.
Aplicações Futuras:
- Deteção precoce de vários tipos de cancro, incluindo mama, próstata, cólon e pâncreas.
- Rastreios populacionais acessíveis com testes rápidos ao sangue.
- Apoio à decisão terapêutica personalizada, nomeadamente para fármacos dirigidos à resposta imunitária.
Tang, C., Corredeira, P., Casimiro, S., Shi, Q., Han, Q., Sukdao, W., … & Bernardes, G. J. (2025). Immunodiagnostic plasma amino acid residue biomarkers detect cancer early and predict treatment response. Nature Communications, 16(1), 6474.