O papel do relógio biológico, da inflamação e da instabilidade genómica numa teoria integrada do envelhecimento – GIMM O papel do relógio biológico, da inflamação e da instabilidade genómica numa teoria integrada do envelhecimento – GIMM

  4 de Setembro, 2025

O papel do relógio biológico, da inflamação e da instabilidade genómica numa teoria integrada do envelhecimento

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A sessão da tarde do GIMM Fest começou com o entusiasmo e a ligação à atualidade feita pelo imunologista Claudio Franceschi, da Universidade de Bolonha, em Itália. Um ponto essencial da sua apresentação foi a descrição do conceito “inflammaging”, termo por si cunhado em 2000, um fenómeno que a revista Time, em 2004, apelidou “o assassino secreto”.

Em 2013, a gerociência sugeria que “o envelhecimento é o fator de risco mais importante para todas as principais doenças. Temos de combater a idade das doenças como um todo e não uma por uma, como é habitual”, notou o médico e investigador.

Seguiram-se alertas sobre o impacto da inflamação crónica e o processo degenerativo; o perigo do isolamento combinado com outras doenças; como os distúrbios do sono podem gerar acumulação de lixo, através da hiperativação e da senescência, propagando a inflamação no cérebro; o papel do intestino na inflamação, pela importância do microbioma.

Mais de 50 a 70 mil milhões de células morrem todos os dias. “Se a morte celular for através de necroptose ou piroptose, há uma libertação de padrões moleculares associados a danos que devem ser eliminados, porque são altamente inflamatórios”, explica Claudio Franceschi.

“Quantificar a ‘inflammaging” é importante”, diz, para se conseguir explicar a heterogeneidade da resposta que só se encontra em indivíduos isolados. “A ideia é que a heterogeneidade do fenótipo se torne progressivamente mais individualizada.”

A imagem apresentada pelo imunologista é fácil de projetar na mente: o corpo humano é um mosaico de diferentes relógios, diferentes também entre cada pessoa. Cada sistema orgânico tem idades e ritmos variados, por isso não envelhecem em simultâneo. A idade biológica específica pode prever qual o órgão que dentro de 10 ou 20 anos irá adoecer.

A inflamação é moldada por múltiplas camadas de contexto biológico e ambiental e não pode ser totalmente compreendida pela catalogação de citocinas e vias. O lugar onde se nasce influencia, bem como a economia de onde se vive. O que comemos também determina as diferenças, assim como o estilo de vida sedentário ou o tabagismo. “A heterogeneidade do envelhecimento requer políticas e intervenções personalizadas”, avisa Claudio.

Os dois oradores, Elsa Logarinho, do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, e Andrei Seluanov, professor de Biologia e Medicina da Universidade de Rochester, em Nova Iorque, nos EUA, centraram-se em descobertas muito específicas, afunilando o tema do envelhecimento.

Andrei Seluanov abordou o “dark genoma: transposons no envelhecimento e doenças relacionadas com a idade”. Enquanto a maioria dos estudos científicos se concentra em cerca de 1% do genoma que codifica proteínas, o «genoma dark» refere-se às vastas regiões não codificantes do ADN, onde os transposons (elementos genéticos móveis) podem ser ativados e contribuir para a instabilidade genómica e o envelhecimento.

Sobre a instabilidade genómica, Elsa Logarinho corrobora o seu papel central no processo de envelhecimento. Danos no DNA afetam a remodelação epigenética e afeta a senescência celular.

A apresentação de Andrei Seluanov continuou, explicando como os retrotransposons LINE1 induzem o IFN (proteína produzida pelos leucócitos e fibroblastos) em células senescentes e promove a inflamação associada à idade. A resposta passa pela supressão dos elementos da LINE1que reduz a inflamação e a fragilidade na velhice, prolonga a esperança de vida e a vida reprodutiva em homens e mulheres.

No futuro, o professor e investigador quer obter respostas para duas perguntas: porque são os transposons bons para a embriogénese (promove a pluripotência) e prejudiciais para o envelhecimento (promove a inflamação)? Como podemos explorar os transposons para rejuvenescer células envelhecidas?

Em 2022, Elsa Logarinho liderou a equipa i3S, com Joana Macedo e Rui Ribeiro os primeiros autores do artigo, que testou os efeitos do gene FOXM1 em modelos de ratinho. Neste trabalho a equipa conseguiu aumentar a longevidade em cerca de 30%, tema que foi parar à capa da revista Nature Aging.

Depois de se ter descoberto que o envelhecimento de células da pele humana está intimamente relacionado com a repressão do gene FOXM1 ao longo da idade, este trabalho permitiu avançar com estudos pré-clínicos em modelos animais de envelhecimento prematuro (progeria) e envelhecimento natural. O estudo forneceu um suporte in vivo para o desenvolvimento de terapias baseadas em FOXM1 para atrasar o envelhecimento. Esta abordagem, garante a investigadora, “representa uma intervenção unificada contra várias comorbilidades do envelhecimento e uma terapia eficaz para a progeria”.

O programa do primeiro dia do Festival GIMM terminou com uma conversa a sete, numa mesa-redonda composta por João Pedro de Magalhães, Vera Gorbunova, Björn Schumacher, Peter Adams, Claudio Franceschi, Elsa Logarinho e Andrei Seluanov, uma espécie de súmula do que se passou ao longo do dia: Que perguntas precisamos de fazer para construir uma teoria integrada do envelhecimento?

O dia terminou com uma sessão de posters muito participada, onde passámos dos vermes aos ratos e aos humanos, do laboratório à clínica e a tudo o que está pelo meio. Os posters traçam os percursos, do nível molecular ao organismo, que moldam a longevidade e a saúde.

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