No início deste século, toda a população do lince ibérico — um imponente felino que vive em Portugal e em Espanha — não chegava a cem indivíduos. Em pouco mais de vinte anos, graças ao Programa de Conservação ex situ do Lince Ibérico, a população daquele que chegou a ser o felino mais ameaçado do mundo ultrapassou os 2400 animais. Na última sessão do seminário do GIMM, Out of Our Box, Rodrigo Serra, coordenador do programa, veio falar-nos do caminho percorrido até agora, das dificuldades que ainda enfrenta e do que falta fazer para garantir que a espécie não desaparece.
Quando deitou mãos à obra, estava quase tudo por fazer. “Sabia-se muito pouco sobre a fisiologia, genética, reprodução, aspetos clínicos, acasalamento e comportamento”, elencou. A estratégia de salvação passou tanto pela tecnologia, com o recurso a técnicas de fertilização em laboratório, como por soluções mais criativas, como a criação de um sistema de túneis e condutas para simular um ambiente natural de caça. “Nunca mantemos um horário regular de alimentação: tanto acontece de manhã, como à tarde, como à noite, e nunca são alimentados por mão humana — obrigamo-los a aprender a caçar”, detalhou.
Durante a apresentação, Rodrigo mostrou-nos vídeos de um parto, de uma briga entre dois animais — que passam, rapidamente, de “pequenos anjos a pequenos demónios” — e também de uma crise de epilepsia num dos felinos, uma patologia que afeta uma parte significativa desta população.
Entre os animais nascidos em cativeiro, atingiram uma taxa de sobrevivência de 75% — um sucesso absoluto! E uma surpresa, admite Rodrigo: “Esperávamos chegar aos 40 por cento.” Mesmo assim, o trabalho está longe de concluído. A caça furtiva, bem como os atropelamentos, continuam a ser ameaças. E a escassez de alimento — o coelho-bravo — permanece um problema. É que este belo e caprichoso animal é muito criterioso com o que come, ao ponto de sincronizar o seu ciclo de vida com o do coelho. “O lince até se pode alimentar de outra carne. Mas só se reproduz se comer coelho-bravo.”
