O aparecimento e expansão dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus em território nacional, capazes de transmitir doenças como dengue, Zika e chikungunya, representam um desafio crescente para a saúde pública em Portugal. Enquanto investigador na Fundação GIMM, que trabalha diretamente com estes mosquitos e as doenças que transmitem, considero que esta realidade deve ser encarada com seriedade e sem alarmismo, mas com a consciência de que é necessário agir para evitar cenários futuros mais complexos.
O Aedes aegypti, presente na Madeira, já demonstrou o seu impacto com o surto de dengue de 2012-2013, enquanto o Aedes albopictus tem vindo a consolidar-se em Portugal Continental, sendo recentemente detetado em Lisboa e no Algarve. Ambos são vetores comprovados de doenças como a dengue, Zika e chikungunya e a sua presença exige uma resposta integrada entre ciência, autoridades de saúde e sociedade.
A ciência e a vigilância como ferramentas essenciais
O risco de transmissão destes vírus não depende apenas da presença do mosquito. É necessário que uma pessoa já infetada por um destes vírus em Portugal, seja picada pelo mosquito, e que este, por sua vez, transmita o vírus a outras pessoas. No entanto, com o aumento das viagens internacionais e as mudanças climáticas, este risco torna-se cada vez mais presente.
A vigilância epidemiológica e entomológica é, por isso, um pilar essencial. Identificar precocemente casos suspeitos e monitorizar as populações de mosquitos permite antecipar potenciais surtos e adotar medidas preventivas eficazes. Temos de agir de forma preventiva e não apenas quando os surtos acontecem.
Em Portugal, o programa REVIVE (Rede de Vigilância de Vetores), coordenado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), desempenha um papel crucial neste esforço. Através da monitorização contínua das populações de mosquitos, da deteção precoce da presença de espécies invasoras e a da avaliação de transmissão de doenças, o REVIVE permite uma resposta mais rápida e informada. Este tipo de iniciativa, baseado em ciência e dados concretos, é essencial para garantir que as estratégias de controlo e prevenção sejam eficazes e adaptadas à realidade nacional.
Na Fundação GIMM, estudamos a biologia dos mosquitos e os mecanismos que possibilitam a transmissão de vírus, com o objetivo de desenvolver estratégias inovadoras para o controlo de infeções virais transmitidas por estes insetos. A investigação que realizamos foca-se em abordagens como a introdução de uma bactéria que impede a transmissão de vírus pelos mosquitos (a bactéria Wolbachia), o desenvolvimento de novas moléculas antivirais que podem reduzir a propagação dos vírus e o estudo da resistência dos mosquitos aos inseticidas, permitindo a criação de métodos de controlo mais eficazes e sustentáveis. Estes avanços científicos são fundamentais para combater a crescente ameaça representada pelos mosquitos vetores em Portugal e no mundo.
A responsabilidade coletiva no controlo dos mosquitos
Os esforços institucionais e científicos são fundamentais, mas há uma componente essencial nesta equação: a responsabilidade individual e coletiva. O Aedes aegypti e o Aedes albopictus reproduzem-se em pequenas quantidades de água parada, muitas vezes dentro de quintais e varandas. Cada um de nós pode contribuir para a redução da sua presença ao eliminar possíveis criadouros, como pratos de vasos de plantas, bebedouros de animais, reservatórios de água mal vedados ou entulho acumulado.
Além disso, plataformas de ciência cidadã, como o MosquitoWeb e o MosquitoAlert permitem que qualquer pessoa contribua para a vigilância da propagação destes insetos, através da identificação e registo de mosquitos suspeitos. Com estas ferramentas, os cidadãos podem tirar fotos e enviá-las para especialistas que validam a presença de espécies invasoras, ajudando a mapear a sua distribuição em tempo real. Este tipo de participação ativa reforça a capacidade de resposta das autoridades de saúde e da comunidade científica, permitindo intervenções mais rápidas e direcionadas.
A sensibilização da população para a adoção de medidas preventivas pode fazer uma diferença significativa. Se reduzirmos as condições favoráveis à proliferação destes mosquitos e contribuirmos para a sua deteção precoce, estamos a cortar o problema pela raiz. A prevenção, neste caso e em tantos outros, é mais eficaz e económica do que a resposta a um surto viral.
O equilíbrio entre prudência e ação
Enquanto investigador, não posso ignorar que há um equilíbrio delicado entre informar a população e evitar pânico desnecessário. A presença destes mosquitos em Portugal não significa, de imediato, surtos de doenças, mas também não podemos desvalorizar os sinais de alerta.
Precisamos de uma abordagem coordenada, baseada na melhor evidência científica disponível, em que a saúde pública, a investigação e a sociedade trabalhem juntas para mitigar riscos antes que se tornem crises. A ciência já nos mostrou que há formas inovadoras de controlar populações de mosquitos sem impactos ambientais agressivos. Cabe-nos agora garantir que estas estratégias são adotadas e aplicadas com eficácia.
Portugal tem agora uma oportunidade de agir antes que se depare com uma situação mais complexa. Apostar na vigilância, na investigação e na informação da população são os primeiros passos para garantir que estes vetores não se transformem numa ameaça maior.
Os mosquitos são pequenos, mas o desafio que representam é grande. A boa notícia? Temos conhecimento, tecnologia e capacidade de resposta. Precisamos apenas de agir no momento certo. Esse momento é agora.
Gonçalo Seixas
Investigador, Nuno Santos Lab