A dor tem sido reconhecida como um sinal cardinal de inflamação desde os tempos do médico romano Celso. Porém, apenas na última década se tornou claro que esta comunicação neuroimune é bidirecional: não é apenas que a inflamação provoque dor, mas a dor e, especificamente, os nociceptores – os neurónios que medeiam a sensação – também podem moldar a imunidade. De facto, os nociceptores, dependendo do contexto, promovem, enviesam ou inibem respostas imunológicas em diversas condições, desde alergias a cancro, de infeções a reparação tecidular.
O foco do Laboratório de NeuroImunologia Periférica é explorar os mecanismos moleculares subjacentes à comunicação neuroimune entre nociceptores e o sistema imunológico, e compreender a lógica que dita o resultado final de tais interações.
O laboratório está atualmente focado em três áreas de investigação conceptualmente relacionadas:
1) As células dendríticas (CD) são leucócitos mieloides essenciais para a iniciação e regulação das respostas imunológicas. Em trabalhos anteriores, demonstrámos que os nociceptores utilizam pelo menos três mecanismos molecularmente distintos, dependentes do contexto, incluindo acoplamento elétrico direto, o neuropéptido CGRP e a quimiocina CCL2, para ajustar finamente as funções das CD. Estamos atualmente interessados em esclarecer, com mais detalhe, de que forma estas comunicações moldam a imunidade mediada pelas CD, em vários contextos biológicos, e testar se poderão representar alvos clinicamente abordáveis.
2) Descobrimos recentemente que os nociceptores podem promover o crescimento tumoral num modelo de ratinho de cancro da bexiga urinária, induzindo um fenótipo anti-inflamatório em monócitos infiltrantes do tumor, que, por sua vez, impede a erradicação do tumor mediada por células T. Estamos agora interessados em identificar os mecanismos de comunicação nociceptores: a comunicação entre monócitos e testar se a sua abordagem poderia ser terapeuticamente benéfica. Num conjunto separado de estudos, vamos testar o envolvimento dos nociceptores no processo de formação de metástasea, bem como noutros modelos tumorais.
3) Embora os neuropéptidos nociceptivos, incluindo o péptido relacionado com o gene da calcitonina (CGRP), a substância P e outros, tenham recebido muita atenção pela sua capacidade de afetar as funções das células imunológicas, não são os únicos mecanismos através dos quais os nociceptores e o sistema imunológico comunicam. Porém, a complexidade inerente das interações neuroimunes complica a dissecção sistemática dos mecanismos moleculares subjacentes. Assim, desenvolvemos recentemente um sistema de co-cultura ex vivo que permite a exploração das interações neuroimunes em condições definidas. Estamos agora interessados em desenvolver e utilizar ainda mais esta abordagem para avaliar que tipos de células imunológicas podem receber sinais de comunicação dos nociceptores, compreender os contextos biológicos relevantes e desvendar os mecanismos moleculares subjacentes.
Na vertigem da descoberta