Um enfarte do miocárdio é um evento traumático que desencadeia um processo crítico de reparação, cicatrização e adaptação. No entanto, a recuperação não envolve apenas o coração – o cérebro também desempenha um papel ativo, como demonstrou Filip Swirski, diretor do Cardiovascular Research Institute na Icahn School of Medicine at Mount Sinai, durante um seminário no GIMM.
Utilizando imagiologia de cérebro inteiro em ratinhos após enfarte do miocárdio, a equipa de Swirski mostrou que a lesão cardíaca conduz a alterações altamente específicas na atividade cerebral, sugerindo que a recuperação cardíaca pode depender de uma comunicação estreita entre o cérebro e o sistema imunitário – uma ligação ainda apenas parcialmente compreendida.
Uma das regiões cerebrais onde o impacto do enfarte foi mais evidente foi o hipotálamo, um centro-chave para a regulação hormonal e as respostas ao stress. Três dias após o enfarte, esta região apresentou uma redução acentuada da atividade. Segundo Swirski, isto pode ajudar a explicar como o organismo ajusta temporariamente vias hormonais para permitir que as células imunitárias alcancem o tecido cardíaco danificado e iniciem o processo de reparação. “O cérebro não está simplesmente a reagir ao enfarte; pode estar a influenciar ativamente a resposta inflamatória que se segue”, explicou.
Para observar estas alterações, os investigadores recorreram a técnicas avançadas capazes de mapear neurónios ativos em todo o cérebro. Verificaram também que diferentes formas de stress, como o stress psicológico agudo ou inflamações semelhantes a infeções virais, ativam circuitos cerebrais distintos, sugerindo que o cérebro reconhece e organiza respostas específicas para diferentes ameaças fisiológicas.
Durante o seminário, Swirski abordou ainda o papel inesperado dos macrófagos – células do sistema imunitário – no controlo do colesterol sistémico, protegendo contra a acumulação de placas nas artérias, conhecida como aterosclerose. Esta hipótese emergiu da análise de dados genéticos e de amostras humanas.
Os macrófagos, presentes no tecido adiposo, podem tornar-se particularmente eficientes a capturar e processar colesterol, ajudando a removê-lo da circulação. “O macrófago abre portas ao negócio”, afirmou Swirski, usando a expressão para descrever como estas células entram num modo que funciona, na prática, como um sistema de limpeza metabólica. Uma ideia atravessa todo este trabalho: em muitas doenças, incluindo o muito comum enfarte do miocárdio, só é possível compreender plenamente a condição olhando para além do órgão afetado. Neste caso, coração, cérebro e sistema imunitário estão em diálogo constante – e essa comunicação poderá conter novas respostas para o tratamento das doenças cardiovasculares.
