Pascale Vonaesch: “Descobrimos que existem determinados grupos bacterianos que estão presentes em excesso ou em quantidade insuficiente no microbioma destas crianças [com crescimento comprometido]”.
Compreender como os microrganismos moldam a saúde humana está no centro do trabalho de Pascale Vonaesch. Microbiologista e bióloga de infeções com um forte interesse em saúde pública, construiu a sua investigação em torno da complexa interação entre hospedeiros e patógenos, com particular enfoque nas infeções entéricas. Ao longo dos últimos oito anos, o seu trabalho tem-se centrado cada vez mais em desvendar as relações entre nutrição, microbiota, infeção e as alterações fisiológicas sistémicas que estas desencadeiam no corpo humano, combinando conhecimentos provenientes tanto de estudos clínicos como de investigação laboratorial.
Atualmente Professora Auxiliar na Universidade de Lausanne (UNIL), Pascale Vonaesch visitou recentemente o GIMM, onde participou como membro do júri na defesa de doutoramento de Maria Montoya e apresentou uma palestra.
Fale-nos sobre o projeto Microbiota Vault, no qual está envolvida.
O Microbiota Vault é uma iniciativa criada por Maria Gloria Dominguez Bello e Martin Blaser, com o objetivo de preservar o microbioma para as gerações futuras. Funciona de forma semelhante ao Svalbard Seed Vault, para onde são enviadas sementes. No nosso caso, tratam-se de amostras de microbioma, que são armazenadas num local comum e ficam disponíveis também para as gerações futuras.
Qual é o objetivo de armazenar estas amostras?
O objetivo é preservar. Ou seja, manter a biodiversidade para as gerações futuras. A ideia não é propriamente fazer investigação, mas sim armazenamento. Depois, investigadores interessados em aceder às amostras podem entrar em contacto com os investigadores locais que as depositaram.
Por que existe este interesse generalizado na microbiota por parte da comunidade científica mundial?
O microbioma desempenha um papel crucial na nossa saúde. Somos colonizados à nascença e, a partir daí, convivemos com os nossos microrganismos ao longo de toda a vida. Os microrganismos fazem verdadeiramente parte de nós e estão por todo o lado. No seu conjunto, o microbioma codifica cerca de 100 vezes mais genes do que o genoma humano. Por isso, é capaz de desempenhar muitas funções que contribuem para o nosso bem-estar e saúde. Cada vez mais, temos consciência de que o equilíbrio do microbioma, moldado pelo nosso estilo de vida e pela alimentação, pode influenciar as comunidades microbianas e, por sua vez, impactar a nossa saúde. É por isso que é tão importante estudar o microbioma com maior detalhe.
Tem estudado a relação entre crianças com atraso de crescimento e microbiota. Fale-nos sobre isso.
Estamos interessados no papel do microbioma no atraso de crescimento infantil [quando o crescimento das crianças é comprometido devido à desnutrição]. O que descobrimos é que existem determinados grupos bacterianos que estão em excesso ou em falta no microbioma destas crianças. Isto pode contribuir para a fisiopatologia que observamos. No meu grupo, procuramos compreender em maior detalhe os mecanismos moleculares subjacentes a estas interações entre hospedeiro e microrganismos. Também tentamos encontrar novas opções terapêuticas que permitam reequilibrar o microbioma e, idealmente, possibilitar que estas crianças retomem um crescimento saudável.