Miguel Soares e a sua equipa no GIMM recebem 2,5 milhões de euros do Conselho Europeu de Investigação para desenvolver uma das hipóteses mais contraintuitivas da biologia: que a molécula responsável pela icterícia pode ser uma das nossas defesas mais antigas contra a malária.
Durante 2500 anos, os médicos leram a icterícia como um sinal de alarme. O amarelecimento da pele e dos olhos, causado pelo aumento dos níveis de bilirrubina, foi sempre tratado como evidência de que algo corria mal. Miguel Soares passou anos a construir a argumentação de que, em determinadas situações, acontece precisamente o contrário: que o organismo não está a falhar, mas a combater.
O seu novo projeto, KILLBILL (A metabolic-based defence strategy against malaria), financiado por uma ERC Advanced Grant no valor de 2,5 milhões de euros, vai pôr essa ideia à prova ao longo dos próximos cinco anos. A equipa vai mapear as múltiplas formas como a bilirrubina pode actuar durante a infecção por malária: como arma contra o parasita, como escudo para os tecidos do hospedeiro, e como potencial modulador das respostas imunitárias e da eficácia das vacinas. Os resultados poderão reformular a forma como entendemos uma das doenças mais antigas da humanidade.
A hipótese não é especulativa. Trabalhos do laboratório de Soares, publicados na revista Science (ver referência 1) e na iScience (ver referência 2), já demonstraram que a acumulação de bilirrubina durante a infecção por malária pode representar uma resposta adaptativa do organismo, e não um mero subproduto da doença. O organismo, ao que tudo indica, pode estar deliberadamente a elevar os seus próprios níveis de bilirrubina para limitar a propagação do parasita e reduzir os danos colaterais nos tecidos.
“Há 2500 anos que a icterícia é descrita como um sinal de doença. O que nós mostrámos é exactamente o contrário: é protecção,” afirma Miguel Soares. “É uma verdadeira mudança de paradigma.”
A ERC Advanced Grant é atribuída exclusivamente a investigadores com um percurso consolidado e uma capacidade demonstrada de produzir ciência verdadeiramente inovadora. A competição é intensa: o programa financia apenas uma pequena fracção das candidaturas recebidas a cada ano, seleccionando os projectos que os avaliadores considerem representar um salto qualitativo genuíno. Para Miguel Soares, esta é a segunda ERC Advanced Grant da sua carreira, uma distinção partilhada por muito poucos cientistas na Europa e uma marca de excelência continuada que é, em qualquer área, verdadeiramente rara.
A atribuição deste financiamento reflecte também o ambiente que torna possível este tipo de investigação. O GIMM foi criado precisamente para reunir a diversidade de competências que um projecto como o KILLBILL exige: conhecimento aprofundado em imunologia, biologia do parasita, metabolismo do hemo, lesão e reparação de tecidos, e as vias de translação que podem levar uma descoberta laboratorial à aplicação clínica. Essa combinação, reunida sob o mesmo tecto e ancorada numa cultura de rigor científico, é o que torna credível colocar questões tão fundamentais como estas.
O KILLBILL abre também uma janela sobre a ligação entre malária e drepanocitose, há muito observada mas ainda mal compreendida. A drepanocitose é conhecida por conferir protecção parcial contra a malária, uma relação anteriormente documentada pela equipa de Soares (ver referência 3). A hipótese de trabalho actual é que a bilirrubina está no centro de ambos os fenómenos: limitando o alcance do parasita e atenuando simultaneamente os danos celulares que este provoca.
“Temos fortes indícios de que a bilirrubina pode estar a fazer as duas coisas ao mesmo tempo,” afirma Miguel Soares. “Proteger contra o parasita e proteger os tecidos do organismo.”
Se o KILLBILL cumprir o que promete, as implicações vão muito além da malária. Uma molécula tão antiga e tão omnipresente como a bilirrubina, utilizada pelo organismo como linha de defesa de primeira resposta, poderá inspirar uma nova classe de terapêuticas enraizadas não na farmacologia, mas na evolução. Para a drepanocitose, para os danos teciduais associados ao ferro e para as doenças infecciosas em geral, o trabalho que agora começa no GIMM pode revelar-se muito mais consequente do que o seu ponto de partida sugere.
Referências:
Referência 1 aqui.
Referência 2 aqui.
Referência 3 aqui.