A malária continua a ser um dos principais desafios de saúde pública à escala mundial. Apesar dos avanços recentes, incluindo a introdução de vacinas contra a malária, a proteção que estas conferem continua a ser parcial, e a complexidade do ciclo de vida do parasita Plasmodium dificulta o desenvolvimento de uma imunidade ampla e duradoura.
Um novo estudo de investigadores do GIMM, publicado no Journal of Infectious Diseases, com o apoio da Merck KGaA, explora uma estratégia em que se combinam duas funções numa única intervenção: eliminar o parasita e, simultaneamente, permitir que o sistema imunitário desenvolva memória contra futuras infeções. O estudo, liderado por Claudia Demarta-Gatsi, Diana Moita, Diana Fontinha, Raquel Ventura, Helena Nunes-Cabaço, Thomas Spangenberg e Miguel Prudêncio, avaliou o potencial da cabamiquine (CBQ) em modelos de malária em ratinhos.
Um risco controlado: tratar a infeção sem impedir completamente a exposição ao parasita
As estratégias de tratamento convencionais procuram eliminar o parasita o mais rapidamente possível. A abordagem investigada neste estudo é diferente: utiliza um fármaco capaz de bloquear o crescimento do Plasmodium num momento controlado da infeção, permitindo que o sistema imunitário seja exposto a uma maior variedade de componentes do parasita, sem deixar que a infeção evolua para doença grave. Esta estratégia é conhecida como infeção-e-tratamento.
A CBQ é um novo antimalárico oral que inibe o fator de elongação eucariótico 2 (eEF2) do Plasmodium, interferindo com a síntese de proteínas do parasita, que está atualmente em ensaios clínicos de fase 2 clinical, em combinação com a pyronaridine. Uma das características relevantes deste fármaco é a sua atividade em diferentes fases do ciclo de vida do parasita, incluindo as fases hepática e sanguínea. O estudo procurou responder a uma questão central: ao controlar a infeção, poderá a CBQ contribuir também para o desenvolvimento de memória imunitária protetora?
Numa primeira série de experiências, os ratinhos foram expostos a esporozoítos, a forma do parasita transmitida pelos mosquitos, e posteriormente tratados com uma única dose de CBQ.
O tratamento impediu que a infeção hepática evoluísse para uma infeção sanguínea detetável.
O estudo explorou também uma segunda possibilidade: utilizar a CBQ quando o parasita já se encontra na fase sanguínea da infeção, aquela em que surgem os sintomas da malária. Nesta fase, os investigadores trataram os animais depois de a parasitémia ter atingido um nível definido e, posteriormente, voltaram a expô-los ao parasita. At this stage, the researchers treated the infected animals and subsequently exposed them to the parasite again. Uma única administração de CBQ em combinação com a pironaridina, correspondente à estratégia terapêutica atualmente em desenvolvimento clínico, foi capaz de eliminar a infeção inicial e induzir proteção contra a doença grave provocada pela segunda exposição ao parasita.
Uma ponte entre tratamento e vacinação
Os resultados apresentados neste estudo apontam para um conceito particularmente interessante: a possibilidade de utilizar um fármaco antimalárico não apenas para tratar ou prevenir uma infeção, mas também para transformar uma infeção controlada numa oportunidade para o sistema imunitário aprender. Esta abordagem poderá ser relevante em contextos onde a exposição ao Plasmodium é repetida. Em vez de eliminar imediatamente toda a exposição aos antigénios do parasita, o tratamento poderia permitir uma exposição suficiente para estimular a memória imunitária, mantendo simultaneamente o parasita sob controlo.
«Os próximos passos deverão incluir estudos que permitam compreender melhor a relação entre a atividade farmacológica da cabamiquina, a duração da exposição aos antigénios do parasita e o desenvolvimento de memória imunitária», explica Miguel Prudêncio. O objetivo último seria, assim, transformar o próprio processo de tratar uma infeção numa oportunidade para preparar o sistema imunitário para a próxima.