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  22 de Outubro, 2026

De um vírus misterioso à cura: Charles Rice no GIMM Fest, quatro décadas de investigação sobre a hepatite C

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O caminho até uma descoberta científica raramente é uma linha reta. Na keynote do GIMM Fest, o virologista Charles Rice, laureado com o Prémio Nobel, levou o público na longa viagem, muitas vezes frustrante, que o conduziu à identificação do vírus da hepatite C (HCV) e criou as condições para o desenvolvimento de tratamentos altamente eficazes, que mudaram por completo o curso da doença. Uma história de desafios técnicos, desvios científicos e muita persistência.

Charlie – como gosta de ser tratado – começou por relatar o seu percurso na virologia, que teve início quase por acaso, quando, ainda estudante de doutoramento no Caltech, na década de 1970, integrou um laboratório dedicado ao estudo de vírus de RNA. As novas ferramentas da biologia molecular tornaram possível o estudo dos vírus ao nível genético, o que viria a determinar o início da sua carreira. O trabalho sobre a febre amarela e outros flavivírus acabaria por lhe proporcionar os conhecimentos e as técnicas que o ajudariam a enfrentar um problema muito mais complexo: a hepatite C.

Na altura, a hepatite C tinha ainda uma causa não identificada, sendo chamada de hepatite não-A, não-B. O vírus só viria a ser identificado em 1989, mas estudá-lo revelou-se extraordinariamente difícil. Era difícil cultivar o HCV em células, não existia um modelo animal de pequeno porte adequado e os investigadores dependiam fortemente de chimpanzés. Na sua palestra, Charlie descreveu as sucessivas tentativas da sua equipa, muitas delas infrutíferas, para desenvolver sistemas que permitissem estudar experimentalmente o vírus.

Um dos avanços decisivos aconteceu em 1997, quando a sua equipa conseguiu produzir RNA do HCV infeccioso, capaz de provocar uma infeção em chimpanzés. Outro marco importante surgiu em 2005, quando os investigadores desenvolveram finalmente um sistema de cultura celular que permitia reproduzir todo o ciclo de replicação do HCV. Estes sistemas experimentais transformaram a investigação nesta área, tornando possível estudar o vírus em detalhe e, sobretudo, testar potenciais medicamentos antivirais.

Rice acompanhou depois o desenvolvimento de tratamentos dirigidos a proteínas virais essenciais para a replicação e a montagem do vírus. A chegada dos antivirais de ação direta revolucionou o tratamento da hepatite C. Hoje, combinações destes medicamentos conseguem curar a infeção em dois a três meses, com taxas de cura próximas dos 100% na maioria dos doentes. A sua eficácia é particularmente notável tendo em conta a enorme diversidade genética do HCV: estima-se que uma pessoa com infeção crónica possa gerar um bilião de variantes virais num único dia.

Mas a vitória científica ainda não se traduziu na eliminação da hepatite C. Rice sublinhou que identificar as pessoas infetadas, garantir o acesso ao diagnóstico e ao tratamento, assegurar medicamentos a preços comportáveis e chegar a diferentes grupos de doentes continuam a ser desafios importantes. Apontou o Egito como exemplo do que é possível alcançar quando se conjugam tratamentos acessíveis e medidas de saúde pública em grande escala: o país reduziu drasticamente o peso da hepatite C, depois de ter registado uma das mais elevadas taxas de infeção do mundo.

Continuamos no entanto sem uma vacina. E, apesar da eficácia dos tratamentos, as pessoas que já sofreram lesões no fígado continuam em risco de desenvolver carcinoma hepatocelular, um tipo de cancro do fígado. Por isso, Rice apresentou o trabalho do seu laboratório para desenvolver um modelo animal de pequeno porte que ajude os investigadores a compreender os mecanismos que relacionam a infeção crónica pelo HCV com a inflamação do fígado, a fibrose e o cancro. Um modelo baseado num vírus semelhante ao da hepatite C, encontrado em ratos da Noruega, revelou resultados particularmente promissores: os ratinhos infetados podem desenvolver infeção crónica, fibrose hepática progressiva e, com elevada frequência, cancro do fígado.

No final, Rice foi além da hepatite C para refletir sobre a forma como se constroi o progresso científico. A história do HCV, defendeu, é o resultado de um esforço à escala mundial, que envolveu investigadores de ciência fundamental, médicos, doentes, empresas de biotecnologia e indústria farmacêutica. Muitos dos avanços decisivos não poderiam ter sido antecipados.

A sua mensagem final foi mais abrangente do que a hepatite C: as doenças infecciosas não vão desaparecer e a ciência tem de estar preparada para lhes responder, em vez de se limitar a reagir. Perante a complexidade e a diversidade dos agentes patogénicos, Rice defendeu a manutenção de um leque alargado de linhas de investigação, incluindo investigação fundamental cuja aplicação prática não seja imediatamente evidente. Como demonstra a história da hepatite C, uma descoberta inesperada de hoje pode tornar-se a ferramenta que amanhã permitirá resolver um importante problema médico.

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