Vacinação contra a malária poderá ter de ser adaptada à idade de forma a garantir a sua eficácia, sugere novo estudo – GIMM Vacinação contra a malária poderá ter de ser adaptada à idade de forma a garantir a sua eficácia, sugere novo estudo – GIMM
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  12 de Outubro, 2026

Vacinação contra a malária poderá ter de ser adaptada à idade de forma a garantir a sua eficácia, sugere novo estudo

Science

A vacinação contra a malária tem-se centrado tradicionalmente em quem mais precisa de proteção: as crianças que vivem em regiões onde a transmissão é elevada. Mas o que acontece quando adultos precisam de proteção?

Esta questão esteve na origem de um novo estudo da equipa de Miguel Prudêncio, do GIMM, que averiguou de que forma o envelhecimento afeta a eficácia de duas diferentes estratégias de vacinação à base de esporozoítos inteiros.

Atualmente, em crianças que vivem em regiões de elevada transmissão, estão a ser utilizadas duas vacinas contra a malária (RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M) – vacinas classificadas como de subunidades, que têm como alvo uma proteína específica do parasita da malária. Neste estudo analisou-se uma estratégia diferente: as vacinas de esporozoítos inteiros, que utilizam formas atenuadas do parasita para expor o sistema imunitário a uma gama mais ampla de antigénios do parasita.

A investigação, liderada por Helena Nunes-Cabaço e disponível online na revista npj Vaccines, revelou que, em ratinhos, a idade é um fator determinante na eficácia de duas das vacinas contra a malária, à base de esporozoítos inteiros.

A vacinação contra a malária é cada vez mais relevante para quem não vive em regiões endémicas. Turistas, profissionais de saúde, militares, trabalhadores de organizações não governamentais e migrantes podem estar expostos ao parasita quando se deslocam a regiões onde a malária é endémica. “Queremos proteger toda a gente. As crianças são, naturalmente, as primeiras em quem pensamos. Mas, se algum de nós for para um país endémico, ficará exposto”, observa Miguel Prudêncio.

As duas vacinas testadas foram a de esporozoítos atenuados por radiação (RAS, na sigla inglesa) e a de parasitas geneticamente atenuados com paragem tardia do desenvolvimento (LA-GAP). As vacinas RAS são consideradas uma abordagem de referência entre as vacinas de esporozoítos inteiros: o desenvolvimento dos esporozoítos é interrompido relativamente cedo, durante a fase hepática do ciclo de vida do parasita. Já as LA-GAP são geneticamente modificadas para continuarem a desenvolver-se durante mais tempo no fígado.

Neste novo estudo, a equipa de Miguel Prudêncio demonstrou que os ratinhos de meia-idade não beneficiam da vacinação com RAS da mesma forma que os ratinhos mais jovens e que a abordagem LA-GAP tem potencial para proteger indivíduos de uma faixa etária mais alargada.

Com a vacinação por RAS, a proteção diminuiu com a idade. Já os parasitas geneticamente atenuados com paragem tardia mantiveram o seu efeito protetor nos animais mais velhos. Como explica Helena Nunes-Cabaço, primeira autora do artigo, “a experiência mostrou que o envelhecimento afeta a resposta à vacina. Mostrou também que é possível recuperar esta proteção recorrendo a uma estratégia vacinal diferente”.

A explicação poderá estar relacionada com o tempo que o parasita permanece no fígado. Como os parasitas LA-GAP se desenvolvem durante mais tempo, expõem o sistema imunitário a um conjunto mais amplo de antigénios do parasita e durante um período mais prolongado. Desta forma, os LA-GAP proporcionam algum tempo adicional para que as células imunitárias ‘velhas e cansadas’ dos ratinhos de ‘meia-idade’ consigam desenvolver uma resposta imunitária protetora.

Os investigadores verificaram que esta diferença estava associada a características distintas da resposta imunitária, incluindo a acumulação, no fígado, de células T CD8+ específicas para os antigénios do parasita.

Importa sublinhar que o estudo não demonstra que a vacina tenha sido melhorada ou especificamente modificada para pessoas mais velhas. Em vez disso, compara duas estratégias de vacinação com esporozoítos inteiros já existentes e mostra que estas se comportam de forma diferente consoante a idade.

«Não modificámos a vacina para a tornar mais eficaz», sublinha Miguel Prudêncio. «O que fizemos foi comparar dois modelos em roedores, que reproduzem duas abordagens de vacinação contra a malária já existentes, e mostrar que um deles funciona melhor em ratinhos jovens do que em ratinhos mais velhos, enquanto o outro funciona igualmente bem nos dois grupos.»

Os resultados acrescentam uma dimensão importante ao desenvolvimento de vacinas contra a malária: a idade. As vacinas não desencadeiam necessariamente a mesma resposta imunitária ao longo da vida, e o envelhecimento pode afetar a multiplicação e a função das células imunitárias envolvidas na proteção.

Assim, o desenho das vacinas poderá ajudar a ultrapassar algumas destas limitações associadas à idade. Nos ratinhos mais velhos, a vacinação com LA-GAP restabeleceu uma proteção robusta, sem que isso se traduzisse simplesmente num aumento do número de células T CD8+. Os resultados apontam antes para diferenças qualitativas na resposta imunitária, nomeadamente nos antigénios do parasita reconhecidos pelas células T.

Ainda será necessário percorrer um longo caminho até que estes resultados possam dar origem a recomendações para a população. As experiências foram realizadas em ratinhos, utilizando Plasmodium berghei, um modelo que permite aos investigadores estudar em detalhe a resposta imunitária durante a fase hepática da infeção, mas que não reproduz toda a complexidade da infeção humana por P. falciparum nem o historial de exposição ao parasita das pessoas que vivem em regiões endémicas.

Ainda assim, os resultados reforçam o potencial das vacinas de esporozoítos inteiros com paragem tardia do desenvolvimento como uma possível abordagem de nova geração. Se estas vacinas vierem a demonstrar eficácia e segurança em seres humanos, a idade poderá tornar-se um fator importante para decidir não só quem deve ser vacinado contra a malária, mas também que tipo de vacina poderá oferecer a melhor proteção.

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