A ideia de descoberta permanente atravessou os três dias do GIMM Fest. No sábado, quando abrimos as portas ao público, acrescentámos uma nova dimensão, a da partilha com os cerca de mil visitantes que passaram pelo Pavilhão de Portugal no dia 19 de setembro. Na sessão de abertura do dia dedicado ao público, a nossa CEO, Maria Mota, deixou um desafio: “Espero que, a partir daqui, levem perguntas convosco e que façam perguntas todos os dias”.
Durante todo o dia, pessoas de todas as idades circularam pelos vários espaços do Pavilhão, num ambiente de alegria e curiosidade, aproximando-se de algumas das perguntas que, nos dois dias anteriores, tinham ocupado mais de 300 investigadores. Porque é que os micróbios são importantes para a nossa saúde? Como podem ajudar a prevenir, diagnosticar e tratar doenças? E será possível aprender a programá-los para fazer coisas novas?
“As melhores descobertas ainda estão por fazer”, lembrou a investigadora Ana Santos Almeida. E o último dia do GIMM Fest mostrou que fazer perguntas pode ser uma boa forma de começar.
Ao longo do dia, foi possível criar um micróbio e transformá-lo num pin, jogar à memória com diferentes microrganismos ou tentar a sorte na clawmachine, habilitando-se a ganhar microscópios ou merchandising do GIMM. Também houve oportunidade para ver aquilo que normalmente não conseguimos ver. No Microcosmos, os visitantes puderam observar ao microscópio o fito e o zooplâncton presentes numa gota de água, enquanto a atividade dedicada às bactérias bioluminescentes mostrou como Vibrio harveyi consegue produzir luz azul e comunicar com outras bactérias. E os mais curiosos puderam conhecer os tardígrados, os chamados “ursos de água”, e explorar a sua extraordinária capacidade de sobreviver em ambientes extremos.
Mas perceber os micróbios também passou por compreender o impacto que têm na nossa vida. Em Controlar a Epidemia, os participantes tiveram de tentar travar a propagação de um vírus e perceber como diferentes estratégias, incluindo a vacinação, podem ajudar a controlar uma epidemia. Em Detetives de Epidemias, assumiram o papel de epidemiologistas para investigar surtos, descobrir formas de transmissão e perceber a importância de medidas simples de prevenção.
Houve ainda espaço para experimentar a ciência de outras formas. No Science on the Walls, investigadores e artistas de rua juntaram-se num jogo de “telefone estragado” para transformar investigação científica em arte urbana. E, no Mercado da Fermentação, os micróbios chegaram à mesa: através de provas, demonstrações e conversas com produtores e cientistas, os visitantes descobriram como a fermentação transforma ingredientes e cria sabores. Kéfir, cerveja, pão e kombucha foram algumas das portas de entrada para perceber como os microrganismos fazem parte da nossa alimentação quotidiana.




Nem todos os micróbios são inimigos
As crianças não precisam de crescer numa bolha, protegidas do mundo e, sobretudo, dos micróbios. Dentro do auditório, na gravação ao vivo do podcast Consulta Aberta, da autoria da médica Margarida Graça Santos, a também médica pediatra e investigadora no GIMM Patrícia Costa Reis explicou que um ambiente completamente estéril não favorece o desenvolvimento do sistema imunitário. O contacto normal com diferentes microrganismos faz parte dessa aprendizagem, sem que isso signifique, naturalmente, procurar infeções. Vacinação, higiene e bom senso continuam a ser essenciais.
Ana Santos Almeida e Cristóvão Sousa, responsável de I&D do GIMM Care, recuperaram algumas das descobertas apresentadas nos dias científicos do festival e ajudaram a resumi-las e a traduzi-las para o público. Sendo uma das ideias centrais a de que não somos feitos apenas das nossas células e dos nossos genes. Somos também influenciados pela relação permanente que mantemos com os milhares de milhões de microrganismos que vivem no nosso corpo. E se podemos compreender melhor essa relação, também podemos começar a intervir nela. Cristóvão Sousa explicou como a biologia sintética permite modificar microrganismos com uma precisão cada vez maior. A produção de insulina com recurso a microrganismos modificados é já uma realidade, mas os investigadores estão agora a explorar possibilidades mais sofisticadas: programar bactérias para detetar alterações no organismo ou produzir determinadas substâncias exatamente onde são necessárias.


A ciência também tem de disputar a nossa atenção
Num festival dedicado às perguntas do futuro, houve também espaço para uma questão muito presente no nosso dia a dia: como combater a desinformação? E qual o papel do humor nesta missão?
Na sessão com o título ‘Como pode o humor ajudar a combater a desinformação’, uma conversa que juntou o investigador do GIMM Bruno Silva-Santos e o humorista brasileiro Fábio Porchat, moderada pela animadora de rádio Ana Markl. A incerteza faz parte do próprio método científico, lembrou Bruno Silva-Santos. O problema é que uma explicação falsa pode oferecer aquilo que a ciência nem sempre consegue dar imediatamente: uma resposta simples e aparentemente definitiva. Por isso, defendeu, não basta ao cientista dizer “não sei”. É preciso explicar o que ainda não se sabe e o que está a ser feito para encontrar a resposta.
Há ainda outro desafio: as histórias podem ter mais força do que os números. Uma estatística baseada em milhões de casos pode ter menos impacto do que a experiência de uma pessoa próxima. Como resumiu Bruno Silva-Santos: “Não interessa nada se dois milhões de pessoas não tiveram um efeito secundário, se a senhora da mercearia teve um efeito secundário”.
E poderá o humor ajudar a combater a desinformação? Fábio Porchat acredita que sim. Mas há uma condição: antes de mais, a piada tem de funcionar. “A piada funciona se você rir”, disse o humorista. Isso não elimina, contudo, a responsabilidade de quem comunica, que tem de pensar no que está a dizer e em quem está a ouvir.


Portugal na cura da hepatite C
O dia terminou também com uma história que mostra até onde pode chegar a ciência quando uma descoberta se transforma numa solução concreta. A hepatite C passou de uma doença cuja causa era desconhecida e cujos tratamentos podiam ser muito duros para uma infeção que hoje pode ser curada em poucas semanas.
Em Portugal, mais de 30 mil pessoas foram tratadas ao longo de uma década e cerca de 97% ficaram curadas. Mas ter a cura não significa ter o problema resolvido.
“Temos as ferramentas que nos deveriam permitir erradicá-la”, afirmou Charles Rice, Nobel da Medicina em 2020 e convidado especial do GIMM Fest. O desafio passa agora pela saúde pública e pela capacidade de fazer chegar essas ferramentas às diferentes comunidades.
Ricardo Fernandes lembrou que continuam a existir bolsas de infeção em Portugal e defendeu que o tratamento tem de chegar a todos para que a hepatite C possa deixar de ser um problema de saúde pública.
Durante três dias, o GIMM Fest juntou investigadores, estudantes, profissionais de saúde, comunicadores e público de todas as idades em torno de uma ideia simples: a ciência começa muitas vezes com uma pergunta. A próxima edição já tem regresso confirmado: 23 a 25 de setembro de 2027, com o tema da biologia sintética, que nos transporta para a pergunta: o que podemos construir quando aprendemos a programar a vida?
